Marcola nunca deu sorte com mulheres. Desde a adolescência, as namoradas enfeitavam-lhe a cabeça com diadema de vaca: chifres. Conhecera Kelly e, nela, pensava ter encontrado a mulher ideal. Viviam juntos há três meses.
Tempo de eleições, a produtora de Marcola exigia que todos se desdobrassem produzindo peças publicitárias para os muitos candidatos. Na noite de sexta-feira, ele avisou a parceira, que trabalharia até as duas da manhã. Ela, com ar de tristeza e enfado, murmurou:
- Sem meu rei, vou ler um pouco e dormir cedo.
Na produtora, por volta das 21 horas, um curto (ou longo?) circuito deixou o ambiente às escuras. Marcola voltaria pra casa mais cedo. "Não vou ligar", pensou. "Faço surpresa pra Kelly e aproveito para uma noite de amor". Nem tinha entrado no carro, quando apareceu a figura de Fred, amigo dos tempos de faculdade, que o convidou para uma cervejota em barzinho suspeito no entorno da cidade. Relutou, mas aceitou: "Depois, explico e meu Kellinha não vai se incomodar".
No bar superlotado de pessoas bonitas e elegantes, depois da quarta cerveja, Marcola jactava-se da sorte que dera ao conhecer Kelly. Falava das qualidades encontradas na nova paixão:
- Fred, depois de tantos relacionamentos infiéis e muitos desacertos, arranjei a mulher ideal. Kelly é uma rosa... – E empolgado – A mulher é dengosa, gostosa, carinhosa, prestimosa, virtuosa...
A porta do bar se abriu, Kelly entrou. Marcola assustou-se quando viu a amada em minúsculo vestido preto – em cima, sobre os seios voluptuosos, o modelito começava muito tarde; embaixo, sobre as longas coxas, terminava muito cedo -, maquiagem exagerada, toda sorrisos, pendurada no pescoço de Alceu. A danada passou sem ver o noivo com o colega. Fred entendeu que aquela era a mulher do amigo e teve vontade de chorar quando ouviu-o balbuciar tristemente:
- ... E mentirosa...
Ante a visão daquela deusa do pecado, Fred falou sem pensar:
- Ma-ra-vi-lho-sa!