No Brasil, a pretexto de impostos, o governo garfa cerca de 40% dos ganhos do cidadão. A educação falida força a contratação de ensino particular, a falta de transportes públicos impõe a utilização de veículos próprios ou pagamento de empresas especializadas (muitas vezes, nem tão especializadas assim), e o caos nas polícias leva à instalação de aparatos de vigilância e manutenção de verdadeiras feras dentro de casa para garantir segurança.
Diversas vezes depois que teve a residência invadida por amigos do alheio, Glauco isolou o terreno com cercas elétricas, colocou grades em portas e janelas, instalou moderníssimo sistema de alarme com câmeras e, para sentir firmeza, comprou um ferocíssimo rottweiler.Eustáquio Carvalho, oficial da Força Aérea Brasileira, fora designado para servir na Base Aérea de Boa Vista. Glauco, amigo de infância do capitão, ofereceu-lhe hospedagem até que móveis e eletrodomésticos do militar chegassem pelo caminhão de mudanças. E, assim, na edícula da residência do fiscalda Receita Estadual , aboletou-se a família Carvalho: Eustáquio, Graça e duas crianças – Juninho, de sete anos, e Carlinho, de seis. Ah, os hóspedes trouxeram consigo um minúsculo cachorro chihuhaua.
O fiscal hospedeiro fez questão de explicar a rotina de segurança doméstica e recomendou à família Carvalho: “Às oito da noite, solto meu cachorro. A partir deste momento, por favor, não saiam dos seus aposentos em hipótese alguma, pois Jack é muito perigoso”. O rottweiler tinha o sugestivo nome do estripador londrino. “Tenham muito cuidado com esse cachorrinho de vocês”, acrescentou.
À noite, na hora do jantar, ouviu-se conversa entre as crianças da família Carvalho:
- Mano, a gente precisa ter cuidado pro Faisca não se soltar... O cachorro do tio Glauco é muito perigoso...
- Pois, é, Juninho, o Faísca pode até matar o Jack...
- Matar? Como?
- Já pensou se o Jack resolve devorar nosso Faisquinha? Ele pode até morrer engasgado...