Nezinho é o cara. Jovem, corpo atlético, bonito, bem humorado, tem todas as armas para fazer sucesso entre as mulheres. Elas adoram a companhia do pagodeiro. É. Pra completar, Nezinho é pagodeiro de primeira linha.
Tem samba? Nezinho tá dentro. Cuíca, agogô, atabaque, repique, reco-reco... Percussão, ele manda ver. Ele também arrisca uns acordes em cavaquinho, bandolim e banjo.
Dinorá, a mulher de nosso herói, se incomoda – E muito! – com a vida mundana do companheiro. Ultimamente, vem marcando de perto. Se ele demora a chegar, os telefonemas começam a pipocar.
Na sexta-feira, a Seleção Canarinho perdeu para a Holanda na Copa da África do Sul. Tristeza. No sábado, chegou a vez de os hermanos argentinos carimbar passaporte e voltar pra casa. O pagode de sábado na casa de Nego Tôim quase foi cancelado, mas a derrota do time de Maradona deu novo ânimos e a turma do samba retomou atividades. Nezinho, claro, tava lá.
A festa começou cedo. Pouco antes da meia noite, Dinorá faz a primeira ligação:
- Nezinho, a que horas você vem pra casa?
- Assim que acabar a cerveja e o samba, meu bem...
Às 12 e meia, Dinorá liga de novo. Nezinho, depois de ouvir reclamações e nhem-nhem-nhéns, corta: “Porra, amor, dá um tempo... Agora que a coisa tá animando...”
Já era madrugada de domingo, duas e quarenta cinco, quando Dinorá liga e resolve abrir o verbo:
- Olha, Nezinho, assim não dá! Sei que tem umas periguetes por aí... Você não é flor que se cheire... Não vou admitir levar chifre dessas vagabundas...
Nezinho arma-se de muita calma e contemporiza:
- Porra, meu bem... O Haiti ainda não se refez dos estragos deixados pelos terremotos, alagoanos e pernambucanos estão sofrendo com estas enchentes malucas, muitos brasileiros ainda estão inconsoláveis com a desclassificação de nosso time... Com tanta desgraça, você fica aí se preocupando com chifre? Para com isso, meu bem...