Sexta-feira, duas e meia da tarde, Zé Paranhos, chegou ao trabalho, sentou-se, abriu uma gaveta, dali retirou disfarçadamente uma garrafinha daquelas de bolso com Johnnie Walker, uma pílula de Viagra e uma caixa de Jontex, acomodou tudo na valise, remexeu alguns papéis sobre a mesa, levantou-se, e, com a pasta na mão, anunciou:
- Vou p´ruma reunião e acho que vou demorar... Não sei se volto antes do final do expediente.
Os colegas se entreolharam, esboçaram sorrisos de cumplicidade e continuaram suas tarefas. Toda sexta era assim: Zé, com o pretexto de reunião, saía para pecar. Só ele não sabia que todos sabiam da artimanha. No começo do expediente os colegas pilheriavam entre si: "Será que hoje vai ter reunião?"
Zé seguiu até o posto de gasolina onde Keyla, vestida em apertadíssimas calça jeans e mini blusa, o esperava. A amante, entrou no carro, lançou um sorriso maroto para o motorista, deitou-se no assento recostado e deixou-se caída até chegar ao motel. Na recepção, foi-lhes estendida uma vara a chave do apartamento 103.
Ao passar para o nicho indicado, Zé, reconheceu, na garagem do 101, o Astra de Rubinho, colega de repartição. Desceu e, ao aproximar-se, viu que o retrovisor direito do Chevrolet estava quebrado, quase caindo; resolveu retirá-lo, para, assim, mostrar que tinha uma prova do crime. Pura farra.
Na segunda-feira de manhã, Zé trazia nas mãos, além da costumeira valise, um saco de papel contendo o retrovisor do carro de Rubinho. Acomodou a pasta no lugar costumeiro e seguiu para a copa, onde ficaria esperando o colega para dar desfecho à brincadeira.
Homem sério, circunspecto, dedicado à esposa, aos filhos e à igreja, Rubinho surgiu no corredor às oito e meia e seguiu para tomar o primeiro cafezinho do dia. Zé, com o pacote na mão, aproximou-se, deu-lhe um tapinha nas costas, e, com ar de cumplicidade, tentou entabular uma conversa:
- E aí, cara, tudo bem? Como foi o fim de semana?
Rubinho franziu o cenho, esboçou sorriso amarelo para o amigo e falou:
- Tudo bem. Tranquilo como sempre... Mas nossa cidade não é mais a mesma. Não sei onde vamos parar com tanto vandalismo. A violência está imperando no seio de nossa juventude. Imagine que na sexta à tarde minha esposa foi ao cabeleireiro, estacionou o carro ali no centro, e, só de sacanagem, uns galerosos arrancaram o retrovisor do nosso carro!!!
Zé, decepcionado, voltou para a sala, jogou o saco com o espelho retrovisor dentro do cesto de lixo, olhou para fora, viu um jacamim caçando insetos pelo chão e, silenciosamente, orou: "Deus, proteja este corno!"