Cresci atrás de um balcão. Quando comecei a trabalhar? Aos oito, nove anos... Não me lembro. Lembro-me do balcão, dos fregueses, do dia a dia. Eu gostava do que fazia.
Nos primeiros tempos estudava pela manhã e trabalhava à tarde. Depois, meu pai inverteu os horários. Eu seria mais útil na parte da manhã para ir a bancos e repartições públicas.
Ali pelos doze anos de idade, me foi concedido um salário: Cr$500 por dia. Se trabalhasse todos os dias, sábados inclusive, conseguia tirar Cr$12.000 por mês. Doze "cabrais".
Algum tempo depois de me tornar assalariado, abri conta tutelada no Banco da Amazônia. Papai era meu tutor. Depositava naquela poupança sem nenhum problema; para sacar, no entanto, exgiam assinaturas do correntista e do responsável por ele.
Em 1968, aos 13 anos, eu cursava o terceiro ano ginasial. Aqueles que quisessem continuar estudos, tinham que sair do, então, Território de Roraima tão logo terminassem o ginásio. Meu destino seria Brasília. Comecei a economizar todo trocado que sobrava para encarar a vida fora de casa.
Meu pai não controlava o movimento de caixa de sua loja, assim, resolvi me conceder um aumento salarial: vez por outra, quando o faturamento comportava, eu surrupiava uma parte e levava para minha conta no Banco da Amazônia. Passei mais de um ano ajudando na limpeza da gaveta do comércio.
Em dezembro de 1969, comecei os preparativos para a nova jornada de estudos; breve estaria indo embora. Às vésperas da viagem, me dirigi ao banco para verificar o saldo e sacá-lo, encerrando a conta. Preenchi o cheque, Cr$768.000,00, assinei, e pedi para meu pai apor sua assinatura. Meu velho olhou para o cheque..., olhou para mim..., olhou o cheque novamente..., sorriu e, meio sem jeito, falou:
- Meu filho, onde você arranjou tanto dinheiro? Vou lhe fazer um convite: com esse capital você pode muito bem ser meu sócio.