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Diálogo de Festas

Seg, 02 de Janeiro de 2012 14:50 Administrador
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Esse texto de Stanislaw Ponte Preta, escrito no final do anos 1960, é tão verdadeiro, tão brasileiro que eu resolvi trazê-lo para os leitores do RH


Diálogo de festas (Stanislaw Ponte Preta)

Iam os dois sentados no banco da frente. O ônibus era desses que levam oitocentos em pé e duzentos sentados. Pelo tempo que eu fiquei parado, junto ao poste, esperando-o, aquele devia ser o último ônibus do ano. Mas isto não importa. O que me interessava – pelo menos naquele momento – era a conversa dos dois, no banco da frente. Um era magrelinha, desses curvadinhos para frente, vergado ao peso da vida. O outro parecia mais velho, mas era espigadinho. O cabelo ralo, mais grisalho do que o do companheiro.

No momento, quem falava era o espigadinho: - Eu não cheguei a ver castanha, a não ser em vitrina, é lógico.

- Eu vi! – disse o vergado: - Eu tenho um vizinho... o Alcides, você conhece. Aquele que a filha fugiu com um sargento da Aeronáutica!

- Ainda está com ele?

- As castanhas?

- Não. O sargento da Aeronáutica, inda tá com a filha dele?

- Não. Com ela está é o filho que ele fez. Mas eu dizia: o Alcides comprou castanhas com 13º. Ele trabalha numa firma que paga certo.

- Estrangeira?

- Deve ser. O Alcides me mandou seis castanhas.

- Você que é feliz.

- Feliz nada. Tive que dar pra outro. Tenho sete filhos, seis castanhas ia causar “probrema”.

O ônibus recebeu mais uns três ou quatro, que foram sentar lá na frente. A conversa entre os dois continuou. Ainda desta vez, quem falou primeiro foi o espigadinho:

- A mulher do patrão me deu uma camisa.

- Tava boa?

- Tava larga.

- Eu ganhei um sapato, por causa do serviço que eu fiz pra Dona Flora.

- Tava bão?

- Tava apertado.

O curvado jogou o toco de cigarro pela janela e deu um suspiro. O companheiro sorriu: - A gene devia fazer faxina pra dona que tem marido do nosso tamanho, assim o que a gente ganhasse delas no Natal pelo menos cabia na gente.

- Ganhar coisa larga é melhor que apertada.

- Ah é!!! Largo é melhor que apertado!

Ficaram calados, ruminando essa verdade natalina durante algum tempo. Depois um deles – já não me lembro qual dos dois – ponderou:

- Diz que esse ano o comércio levou uma fubecada.

- Conversa. Tinha mais gente nas loja que no ano passado. Eles sempre se queixa.

- Ué! Pra mim tanto faz. Quem não ganha já perdeu. Eu num tenho pra dar, num posso ganhar.

Era um raciocínio honesto, cheio de experiência. Tanto que o outro balançou a cabeça, concordando. Mas advertiu o companheiro de que não podia se queixar do natal. Afinal ganhara um cesta de festas.

- Todo ano eu consigo uma. Minha mulher gosta muito dessas cestas de Natal, pra guardar roupa limpa e fazer entrega pra freguesia. Eles ganham elas cheias de garrafas e latas de conserva. Depois de esvaziar até gostam quando a gente leva a cesta vazia pra nós.

O curvado pelo peso da vida ficou olhando pela janela e argumentou:

- Natal é bom por causa dessas novidades. Sempre sobra uma coisinha.

- Eu dei a cesta pra minha mulher. E tu? O que é que deu pra tua?

- Dei o sapato. Tava apertado ni mim, mas ela corta atrás e faz chinela.

Um deles fez sinal para o ônibus parar: - Eu salto aqui.

Deu um tapinha nas costas do outro e disse com a maior sinceridade, sem um laivo de ironia:

- Um feliz 1968 pra você.

- Obrigado. Pra você também.

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