Esse texto de Stanislaw Ponte Preta, escrito no final do anos 1960, é tão verdadeiro, tão brasileiro que eu resolvi trazê-lo para os leitores do RH
Diálogo de festas (Stanislaw Ponte Preta)
Iam os dois sentados no banco da frente. O ônibus era desses que levam oitocentos em pé e duzentos sentados. Pelo tempo que eu fiquei parado, junto ao poste, esperando-o, aquele devia ser o último ônibus do ano. Mas isto não importa. O que me interessava – pelo menos naquele momento – era a conversa dos dois, no banco da frente. Um era magrelinha, desses curvadinhos para frente, vergado ao peso da vida. O outro parecia mais velho, mas era espigadinho. O cabelo ralo, mais grisalho do que o do companheiro.
No momento, quem falava era o espigadinho: - Eu não cheguei a ver castanha, a não ser em vitrina, é lógico.
- Eu vi! – disse o vergado: - Eu tenho um vizinho... o Alcides, você conhece. Aquele que a filha fugiu com um sargento da Aeronáutica!
- Ainda está com ele?
- As castanhas?
- Não. O sargento da Aeronáutica, inda tá com a filha dele?
- Não. Com ela está é o filho que ele fez. Mas eu dizia: o Alcides comprou castanhas com 13º. Ele trabalha numa firma que paga certo.
- Estrangeira?
- Deve ser. O Alcides me mandou seis castanhas.
- Você que é feliz.
- Feliz nada. Tive que dar pra outro. Tenho sete filhos, seis castanhas ia causar “probrema”.
O ônibus recebeu mais uns três ou quatro, que foram sentar lá na frente. A conversa entre os dois continuou. Ainda desta vez, quem falou primeiro foi o espigadinho:
- A mulher do patrão me deu uma camisa.
- Tava boa?
- Tava larga.
- Eu ganhei um sapato, por causa do serviço que eu fiz pra Dona Flora.
- Tava bão?
- Tava apertado.
O curvado jogou o toco de cigarro pela janela e deu um suspiro. O companheiro sorriu: - A gene devia fazer faxina pra dona que tem marido do nosso tamanho, assim o que a gente ganhasse delas no Natal pelo menos cabia na gente.
- Ganhar coisa larga é melhor que apertada.
- Ah é!!! Largo é melhor que apertado!
Ficaram calados, ruminando essa verdade natalina durante algum tempo. Depois um deles – já não me lembro qual dos dois – ponderou:
- Diz que esse ano o comércio levou uma fubecada.
- Conversa. Tinha mais gente nas loja que no ano passado. Eles sempre se queixa.
- Ué! Pra mim tanto faz. Quem não ganha já perdeu. Eu num tenho pra dar, num posso ganhar.
Era um raciocínio honesto, cheio de experiência. Tanto que o outro balançou a cabeça, concordando. Mas advertiu o companheiro de que não podia se queixar do natal. Afinal ganhara um cesta de festas.
- Todo ano eu consigo uma. Minha mulher gosta muito dessas cestas de Natal, pra guardar roupa limpa e fazer entrega pra freguesia. Eles ganham elas cheias de garrafas e latas de conserva. Depois de esvaziar até gostam quando a gente leva a cesta vazia pra nós.
O curvado pelo peso da vida ficou olhando pela janela e argumentou:
- Natal é bom por causa dessas novidades. Sempre sobra uma coisinha.
- Eu dei a cesta pra minha mulher. E tu? O que é que deu pra tua?
- Dei o sapato. Tava apertado ni mim, mas ela corta atrás e faz chinela.
Um deles fez sinal para o ônibus parar: - Eu salto aqui.
Deu um tapinha nas costas do outro e disse com a maior sinceridade, sem um laivo de ironia:
- Um feliz 1968 pra você.
- Obrigado. Pra você também.