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Os filhos de Ostógio

Seg, 23 de Janeiro de 2012 21:42 Administrador
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Ostógio, filho de Hermengildo, casou-se com a filha de coronel Deleutério. Grávida, Ambrosina começou a mostrar-se apática, enfastiada, macambúzia. Doutor Seabra diagnosticou: "Essa menina está neurastênica". Ao ouvir as palavras do médico, o maridão sorriu. Ninguém entendeu aquele sorriso banguela, mas Ostógio acabara de escolher o nome que daria à primeira herdeira. "Se for menino, a gente troca o a pelo o", pensou o cearense. Depois de muitas ameaças de aborto espontâneo, no oitavo mês de gestação, aquela coisica veio ao mundo: dois quilos e duzentos gramas, 38 centímetros. Na pia batismal, a menina recebeu o nome de Neurastênica Soares Figueiredo. Ambrosina, apesar de raquítica, não negava fogo e botava barriga toda vez que Ostógio lhe arriava as calçolas. Em sequência, vieram Neurásia, Neurastênico, Neurivaldo, Neuregésio, Neuvragildo, Neuliberto, Neuletério, Neurivânia, Neurismática. O último rebento, cujo parto promoveu a mãe a defunta: Neuróbito. Mais uma criação do chefe da família, fascinado com a certidão de morte. Ele até pensou em dar o nome de Óbito ao pirralho, mas não podia fugir aos enes do resto da prole. Na cidade, os filhos de coronel Deleutério se tornaram alvos de gozação e comentários maldosos pelas aberrações registradas nas certidões de nascimento. A mais velha deles, tão logo o pai morreu, dirigiu-se ao cartório e requereu mudança de nome. Hoje, aliviada, orgulhosa, de peito lavado, a antiga Neurastênica assina Ostogina Soares de Freitas, junção idealizada por ela e que presta homenagem aos saudosos pai e mãe.

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