Há muito tempo que o Governo do Estadotem fama de atrasar pagamentos a fornecedores e prestadores de serviços. Não sei como é hoje, mas, para receber faturas, o empresário tinha que percorrerverdadeira via crucis e humilhar-se a um e outro para receber o que lhe era de direito. Isso quando não precisava deixar rastro de propinas em secretarias.
Alguns anos atrás,diversos empresários esquentavam a bunda nos sofás do Palácio Senador Hélio Campos quando, de repente, na sala da chefia de gabinete do governador, abruptamente, entrou uma figura que chamou atenção de todos. O visitante, beirando 60 anos de idade, trajava brilhante camisa de seda vermelha, calça, cinturão, meias e sapatos brancos; sobre a cabeça, ele trazia um chapéu também branco, estilo Genival Lacerda. A camisa aberta no peito deixava reluzentes corrente e medalhão de ouro à mostra. No braço direito uma grossa pulseira, também de ouro, fazia contrapeso ao patacão de marcar horas que o nordestino trazia no pulso esquerdo. Não tenho certeza, mas acho que na boca do visitante sobrava espaço para mais uns dois ou três dentes.
Sem fazer arrodeio, ele apoiou-se na mesa da secretária da secretária e disparou:
- Quero falar com o governador!
A balzaquiana assustou-se. Olhou em volta, como se buscasse socorro, e perguntou-lhe:
- O senhor marcou audiência?
- Olhe, eu tentei marcar audiência, mas ninguém retorna minhas ligações e eu tenho que resolver esse assunto hoje.
Não sei se para ganhar tempo, a mulher abriu a agenda, pegou uma caneta e contra atacou:
- Qual é o assunto?
- Falta de pagamento por serviços prestados...
- Que tipo de serviços o senhor prestou ao Governo?
- Cantei no arraial do Parque Anauá em junho e até agora não vi a cor do meu dinheiro.
Ela olhou para as pessoas ali na sala e, envergonhada por receber aquela cobrança que não era dela, continuou:
- Qual o seu nome?
- Messias Holanda.
Para mostrar simpatia e acalmar os ânimos do artista, a secretária da secretária decidiu mostrar que o conhecia:
- Ah, o senhor é o homem que tira coco?
- Olhe, minha filha, eu já subi no pé de coco, já tirei coco, já quebrei coco, já vi que o coco é oco... No momento, eu quero receber o dinheiro dos cocos, pois faz seis meses que eu tou sendo enrolado pelos organizadores da porra daquela festa junina.