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Inicial Cotidiano Rituais, crenças e crendices

Rituais, crenças e crendices

Seg, 05 de Abril de 2010 22:09 Administrador
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Um fio de luz brilha em um dos cantos do casebre de madeira e  ilumina o vão escuro decorado com uma dezena de quadros e estatuetas de santos. Bandeirolas e abajures feitos com folhas de celofanes de várias cores balançam iguais àquelas de noite de São João. O vento entra pelas frestas dos remendos de tábuas, que sustentam a tapera coberta com telhas de zinco.

 

O barraco é o altar de umbanda de Luis Evaristo Sousa Duarte, 66 anos, na cidade de Mucajaí. Daqui a alguns dias, São Francisco das Chagas, São Sebastião, Santa Luzia, São João Batista e outras entidades espirituais ganharão templo novo.

 

A casa, batizada com o nome de Santa Bárbara, a santa milagrosa, foi construída com a contribuição espontânea dos fiéis do pai de terreiro. O quadrado de tijolos revestido com cimento tem uma extensa bancada – da lateral esquerda ao centro do altar –, que vai acomodar as santidades. Cerâmicas brancas e cinzas mesclam o assento das estátuas e dão suavidade ao local, que logo estará alumiado com velas de sete dias.

Gentes de todas as bibocas visitam o pai Luis em busca de ajuda. Seja para rezar o filho com quebranto, curar mau-olhado, arrumar a vida financeira ou resolver males do amor, é o chefe do candomblé quem abre caminhos.

A luz no fim do túnel acena de um copo com água, que abriga a majestosa iemanjá aos seus pés. Do líquido incolor, o umbandista enxerga o mal que atormenta almas sofridas. No ritual são usadas três velas brancas – duas sobre a taça e outra presa à mão direita do pai de santo. Ele acaricia a parafina como se fosse um bem precioso e dá dois toques na taça como se estivesse à porta de um estranho pedindo permissão para entrar.

As batidas insistentes indicam que não será fácil. Um Pai-nosso é rezado às pressas para abrir caminhos. Algumas perguntas são feitas durante a consulta; se o interlocutor não responde, outras indagações serão feitas até que satisfaça a necessidade do vidente.

As respostas nem sempre esvaziam os pensamentos e dúvidas de quem viajou quilômetros para estar ali. O homem atribui a culpa aos caminhos fechados. Recomenda banhos de arruda e manda acender velas para o anjo da guarda.

Antes de encerrar o atendimento - feito individualmente - o chefe espiritual pede para a pessoa acender as duas velas da consulta e colocá-las sobre a borda do copo. O ritual segue quando o homem apanha uma das mantas penduradas numa corda que está sobre o altar, cobre o corpo do paciente e sussurra orações desconexas. Para finalizar, faz o sinal da cruz várias vezes como se o lombo do crente estivesse doente.

O velho Luis diz que aprendeu a ser curador depois de “encruzamento”, ainda rapaz. A instrução espiritual fez fama no franzino da fala embaraçada, que já abriu terreiro nos estados do Maranhão, Ceará, Paraíba e Pará.

Na pequena cidade de Mucajaí, a mesma que se prepara para crucificar Jesus na Páscoa, o paraibano é reverenciado. Tudo que diz vale como receita e é cumprido à risca. “Atendo mais de vinte pessoas por dia”, conta orgulhoso pelo trabalho que realiza.

Se as consultas resultam em cura ou não, parece não importar muito às pessoas que procuram o curandeiro. A curiosidade em querer adivinhar o futuro ou prever a desgraça que pode abater a vida é o que mais importa a quem vai ao casebre do velho Luís.

 

 


Por Eliane Rocha - Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

Última atualização em Seg, 05 de Abril de 2010 22:19

Comentários  

 
+1 #1 antonio mineiro 11/04/2010 22:24
OLha isso exatamente que o Diabo gosta!
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