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O primeiro contato com o mundo mágico das letras foi folheando pequeno dicionário. Soares Amoras, modesto exemplar de capa vermelha doado pelo governo às escolas, apresentou a Vanessa de Paiva Campos, aos oito anos de idade, nomes incomuns em diálogos infantis.
Com um punhado de vocabulário nas mãos, a menina danou-se a escrever. O caderno da escola e bilhetes se tornaram cúmplices nos momentos introspectivos. Crônicas, artigos, transcrições de frases ou poesias passaram a dividir espaços com as disciplinas do colégio – cada qual no seu canto.
A organização, característica que faz questão de assumir ao primeiro encontro, fez render algumas atribuições como ser líder de sala. É Vanessa quem dita as regras aos desavisados colegas e às meninas vaidosas, que vivem querendo ir ao banheiro retocar o batom.
Apesar de gostar do ofício, o que mais lhe encanta são os momentos em que está folheando livros. Química, História, Matemática ou Ciências são leituras que descobrem o mundo para a brasiliense que veio crescer, com a mãe e o irmão – o inquieto Leonardo –, na pequena capital do extremo norte.
Entre as lendas de Makunaima, Canaimé e Curupira, Vanessa esbarrou em Retalhos. Quem diria que a modesta coletânea, escrita por roraimenses e roraimados, sem pretensões de ser referência na incipiente literatura do lavrado, despertaria na garota o desejo de compor as novas co-autorias.
A obra literária foi apresentada pela professora Vera Lúcia Barreto, uma das pessoas que abraçou o projeto cultural, e que descobriu o talento da aluna para desenhar com palavras emoções e curiosidades o mundo cheio de interrogações de um pré-adolescente. A cada folha que virava, Vanessa se via – em segredo – contando suas histórias.
O primeiro ensaio saiu de uma redação. A tarefa de casa rendeu convite para a estudante participar do Retalhos III. É nele que a menina revela nos próximos dias o texto “Adolescência”, experiência viva e pessoal, que mostra a ruptura da passagem da fase infantil para a pré-adulta, cheia de espinhas e pelos.
Ela e mais 53 co-autores colocam à disposição do público 91 textos. Cores, impressões, vivências, cheiros e sabores costuram os retalhos que formam uma única peça. Quando a colcha se abre, Vanessa, seu sorriso tímido, e os novos amigos-escritores parecem saudar o escabreado leitor para uma viagem ao desconhecido.
Soares Amoras talvez não encontre palavras para significar tantos vocábulos que certamente estarão contidos ali, mas é possível que a jovem Vanessa tenha aberto mais uma janela para o futuro cheio de planos. “Quero ser cientista social porque quero estudar o cotidiano da sociedade”, diz convicta.
Enquanto a fase adulta não chega, ela descobre – devagarzinho – que o mundo adolescente não é nenhum “bicho de sete cabeças”.
Por Eliane Rocha - Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.
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