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A visita chega sem avisar. Seu Francisco, amolando a lâmina da velha faca num cepo, olha, de dentro de casa, escabreado, tentando reconhecer quem invade seu quintal sem cerca. A repórter pergunta pelo filho, Fredson, e logo é informada que o menino “está por aí, jogando videogame”.
A renda mensal de pouco mais de um salário mínimo, escolaridade não superior ao ensino fundamental são informações que não diferem em nada da última pesquisa, feita há 10 anos. Um dado novo, porém, inclui o chefe da casa no perfil do brasileiro do século 21: o telefone celular.
A família de Francisco Pereira do Nascimento, 62 anos, não cresceu. Diminuiu. A única filha foi morar com a avó materna. A mulher, Rosimeiry, saiu de casa no dia 8 de dezembro de 1997 a caminho do trabalho. Sem se despedir do marido, muito menos dos quatro filhos que ainda dormiam, ela se foi.
Era uma segunda-feira ensolarada, que o velho Chico faz questão de não esquecer. Um mês depois ela voltou dizendo que não queria mais viver com o marido – nem com as crianças de um, dois, três e quatro anos de idade.
O maranhense, então, assumiu os dois papéis para cuidar dos filhos. Ex-garimpeiro, o que restou de lembrança dos grotões foram os calos nas mãos, renovados nos bicos de capinas que lhe arranjavam nos quintais alheios. A enxada era o único instrumento que o blefado sabia manejar.
Sem profissão nem escolaridade mínima para conseguir emprego decente, o pai solteiro agarrava tudo que lhe aparecia pela frente. Era preciso garantir o sustento dos filhos e a dignidade, que a ex-mulher levou amarrada nos trapos de roupas.
Um novo trabalho surgia e daria mais status ao desprovido de sorte Chico. A bicicleta – com duas rodas adaptadas na dianteira para sustentar um bagageiro, abarrotado de colchas de chenile, panelas, espelhos e outras quinquilharias – seria o ganha-pão do braçal. O transporte – do patrão – deve ser devolvido todos os dias quando o trabalho encerra.
Já se vão oito anos na profissão de crediarista. Neste tempo, ele acumulou mais fichas de clientes devedores do que dinheiro para comprar uma cama para dormir. A única – de casal – acolhe os três rapazes no quarto da frente, enquanto o pai se acomoda na velha rede no outro cômodo.
Ao contar a história, exibe o sorriso falho. Os dentes que ainda lhe restam na boca estão gastos como a lâmina da faca que ele insiste em deixar afiada. Francisco é o retrato fiel da pobreza que mora à esquerda da chamada classe média emergente, que exibe reluzentes picapes Hilux pelas ruas da capital.
Do lado de lá, na zona oeste, Chico se considera um privilegiado por ter casa própria e não ter pagado um tostão por isso. A promessa de um candidato a governador de Roraima nas eleições 2002, de construir – em um único dia – mil casas não foi cumprida, mas foi a salvação do nordestino. O conjunto ganhou o nome “Cidadão”, mas nunca fez jus ao título. Oito anos se passaram e o lugar ermo, continua no esquecimento – das autoridades e dos táxis-lotação, que se esquivam de fazer o trajeto.
Nas ruas sem nomes, pode-se chegar à morada dos Pereira na esquina identificada com uma placa branca “CC12”, afixada na primeira casa. Sem muita diferença de uma para outra, as moradias ainda mantêm o mesmo embrião: dois quartos, sala-cozinha e banheiro. Por fora, os tijolos seis furos resistem à falta de reboco e dão toque rústico às inacabadas construções. O chão batido tem a cor do pretume impregnado em todos os quadrados.
A geladeira Electrolux e o guarda-roupa de solteiro com três portas – comprado pelo filho do meio – Dahlin, 16 anos, – são os únicos móveis novos na casa velha. Sem sofá, cadeiras, mesa para as refeições nem armário para guardar as panelas amassadas e um resto de louças. Este é o lar dos homens jogados à própria sorte. Francisco dá a única coisa que nunca lhe faltou: o amor calado.
Fruto das escolhas
Como um filhote de passarinho que se aninha nas asas da mãe em busca de proteção, Fredson, o caçula, interrompe, silenciosamente, a conversa dos visitantes para sentar-se no colo do pai. O menino, abandonado pela mãe quando tinha um ano de idade, entrelaça os braços com os do pai como se ainda temesse que lhe roubassem o único amor que restou.
Alex, Dahlin, Fredson e a menina Glesi, chamada de Glayce pelos pais, reconhecem a mãe apenas pela Certidão de Nascimento. Há 13 anos, Rosimeiry bateu a porta de casa e nunca mais voltou. Os filhos, como se não quisessem mais sofrer a dor do abandono, emudecem.
Ao ver os filhos crescidos, Francisco respira aliviado: “Eu nunca bati nos meus filhos”, orgulha-se. “Dou sempre conselho pra eles não seguir o caminho errado”, ensina. Enquanto fala, Fredson dedilha os dedos do pai, talvez contando as vezes que o sermão foi dito e ele pouco escutou. “Esse menino é danado”, murmura o pai com ar de preocupação.
O velho Chico sabe o que diz. A sobrevivência de anos no garimpo ensinou que a vida tem caminhos avessos demais. Não vale a pena arriscar-se. Ele reconhece na inquietação de Fredson, cópia fiel do jovem que um dia se embrenhou pelas matas da Amazônia à procura de ouro, que é preciso ter freio nos pés para não escorregar nos barrancos.
Fredson descansa no colo do pai. Acabara de chegar de uma lan house. “Se deixar ele passa o dia todo lá”, reclama Francisco. O menino justifica: “Tava jogando videogame”. Com um chiclete descorado na boca, masca sem parar na esperança de sugar o sabor adocicado da menta que há muito deixou de existir.
A goma é uma das poucas que sobrou da venda de sábado na feijoada da Praça de Alimentação. O pagode ecoa na avenida Ene Garcez enquanto o garoto disputa com mesas, cadeiras e quadris das mulatas um espaço para vender seu produto.
O pai financia o negócio. Entrega aos sábados R$ 20 para o filho comprar caixas de Trident. “Eu não sei o que ele faz com o que ganha”, reclama de novo o pai. “Fico preocupado quando ele sai pra vender essas coisas”. Com o olhar perdido acrescenta: “Mas ele não para”.
Fredson, menino mirrado, olhar de abandono, fala como se estivesse com peso na língua. O relógio na mão esquerda foi presente “de um homem que vende relógio no terminal de ônibus”. A sandália nos pés encardidos ganhou da advogada que conheceu vendendo os chicletes. Ela também deu roupas, cadernos.
Em suas andanças pelo centro da cidade já ganhou muita coisa, mas perdeu também. O isopor da vizinha abarrotado de din-dins, com quem ele dividiria o lucro de R$ 28, foi roubado quando voltava para casa. O dinheiro, o garoto recuperou com doação de servidores de uma repartição pública. O pai não sabia da história. “Ele não me conta nada”, reclama, mais uma vez, sob o sorriso cúmplice do caçula. “Eu fico preocupado dele se acompanhar com gente errada”.
No projeto social, desenvolvido na escola em que estuda, o rapazinho ocupa suas manhãs três vezes por semana. “Eu brinco de bola, xadrez, dama”, conta atropelando as letras. “Eles servem lanche também”.
Dia 2 de novembro, Fredson Leal Pereira vai completar 14 anos. A data poderá ser comemorada com uma pizza ou um sanduíche aloprado x-tudo, o preferido dos irmãos. “Não fazemos festa de aniversário”, diz o pai. Nem podem. O salário é fruto das vendas de porta em porta; nem sempre o que ganha rende um mínimo. O Bolsa Família no valor de R$ 68 é quem chega à mesa nas horas apertadas.
A cada aniversário, a lembrança da mãe vai ficando mais distante. Não têm fotos, notícias, telefonema no Natal ou Ano-novo. Na Carteira de Identidade, tirada recentemente, Fredson sabe que ela existe. Esta lá. Plastificada num quadrado de fundo verde. Em letras pretas garrafais, Rosimeiry Leal da Costa vai continuar do jeito que escolheu: ausente na memória do filho.
Por Eliane Rocha - Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.
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