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Inicial Cotidiano Para uma plateia Caburaí

Para uma plateia Caburaí

Qui, 02 de Setembro de 2010 20:37 Administrador
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Sem avisar, ele foi chegando. Primeiro passou um, depois passaram dois, três... Não demorou, já eram dezenas deles desfilando pela Ville Roy como se fossem povoar a cidade calada no extremo norte do Brasil. Trailers e carretas – dezenas delas – de repente formaram fila na avenida em direção à praça Canarinho.

 

O rosto de um homem – olhar tímido –, e do palhaço abrindo a cortina na lateral de uma das máquinas, saudavam a chegada dos visitantes e levantavam olhares de curiosos. Tihany entrava em território alheio, mas era como se estivesse em casa. Sem querer fazer barulho, para não acordar moradores, os novos vizinhos foram descarregando sua arte antes que a noite se deitasse.

 

A novidade atraiu homens, mulheres e crianças – muitas delas. A menina Letícia, de 11 anos, imprensava o corpo entre as grades de ferro, que agora cercavam o velho e abandonado estádio de futebol, para confirmar o que tinha escutado minutos antes. “Não veio o circo todo”, declara confiante. “Também não tem animais”. Silencia. Volta os olhos para o letreiro rodeado com lâmpadas coloridas e viaja os pensamentos sobre a enorme lona que começa a vestir o esqueleto armado.

Do lado de lá, Iran Sampaio, 21 anos, nem imagina a importância do seu trabalho. Ele e mais 34 homens limpam a área fechada, esticam a grande lona, carregam caixas e mais caixas de metal. O trabalho de 12 horas foi acertado para o final do dia a R$ 35. “Tô muito cansado”, reclama o desempregado e sentencia: “Não sei se vou voltar” – para o patrão, garantiu que ia.

A noite avança, mas ainda há movimento. O gringo de cabelos alvos, que posa feito galã em foto estampada em outra carroceria de carreta, caminha sobre o terreno preparado pela pá carregadeira. Dá atribuições; com a trena acerta a distância na bilheteria. Seguranças vigiam atentos a entrada.

O dia amanhece. A tenda agora está totalmente esticada. Do alto dos contados prédios existentes na capital é possível ver o colorido – vinho e amarelo – que tem forma de balão. Tihany avisa que a estada será de mais dias que o planejado. O que seria apenas o corredor de acesso ao centro-sul do País, depois de 15 anos fora, acabou se tornando o porto seguro enquanto o visto não vem.

È preciso encantar essa gente que nem sabia merecer tanto. No Caburaí, ainda ignorado nos livros de geografia e esquecido pelo formoso âncora global, William Bonner, na estreia do programa “JN no Ar” no estado do Oiapoque, os visitantes anunciam que começa aqui a temporada de dois anos em terras tupiniquins.

Boa Vista parece ter crescido só para assistir ao espetáculo. Os poucos mais de 200 mil habitantes incharam para um milhão, como exigem os donos da festa para armar o circo. Os números, contabilizados em palmas, não vão mudar em nada a estatística de mais de 80 milhões de espectadores em meio século de existência. Para os brasileiros esquecidos acima da linha do Equador isso pouco importa. O que interessa está escondido atrás das cortinas.

Sem pintas, listras e trombas

Abrakdabra. Assim anuncia empolgado Richard Tihany – o gringo da foto – o nome do espetáculo nascido em Las Vegas. Um aparato com 25 mil lâmpadas coloridas encanta convidados para a avant premiére.

O circo sem elefantes, onças e tigres é cheio de gente. São 70 artistas de 25 nacionalidades diferentes – nenhum do Brasil. Gente que se enrola na corda, desliza o corpo no lençol como se estivesse num escorregador de praça.

Mulheres abraçam o pescoço com as pernas e sobem em outras mulheres como se escadas fossem. Se não bastasse a façanha, as pequenas dos olhos apertados ainda espiam a plateia procurando no meio dela pedaços de si, envolto em outros corpos. A cena levanta vistas, abre bocas sem parar. Sem que haja tempo para um novo suspiro, as orientais se misturam outra vez.

O homem que corre solto entre as arquibancadas não tem cara, mas tem pinta de palhaço. Ele veste smoking, igual a um elegante mordomo. Ao público, faz gestos confusos, convoca todos e ensaia uma chuva de macarronada.

Em duas horas, o mundo circense se abre para Roraima. Detrás das cortinas, dezoito atrações incluindo ballet, acrobacia e ilusionismo surgem sem parar. Do alto do picadeiro, homens e mulheres voam sobre o respeitável público, conectados a cordas, em desafio à gravidade. Se é para impressionar, o ilusionista faz levitar sua linda assistente; e o palco se transforma numa gigantesca fonte de água com fogos dançantes.

No mundo mágico de Tihany vale tudo. Luxo, elegância e pompa não são quesitos poupados quando seus artistas entram em cena. Seja numa Harley-Davidson, no Rolls Royce – o mesmo da frota da rainha britânica Elizabeth – ou na inusitada aparição de um helicóptero, os anfitriões sabem como deixar seus convidados cheios de graça.

Sabem também que celebrar 50 anos não teria lugar mais adequado do que dentro do picadeiro. O grandioso bolo iluminado que encerra a apresentação da noite representa o sonho de seu idealizador, que deu nome ao circo. Tihany, que estreiou em modesta tenda na cidade paulista de Socoracaba, cresceu mais do que imaginava. Igual ao público boa-vistense que nem sabia merecer tanto.


 

 

Por Eliane Rocha - Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

Última atualização em Qui, 02 de Setembro de 2010 22:05

Comentários  

 
0 #2 Monica 24/09/2010 04:08
Eliane, parabéns pelo belíssimo texto, um dos mais emocionantes e envolventes que já li sobre o Tihany, que tenho o prazer de ler, na qualidade de coordenadora da turnê brasileira. Amei!
Obrigada.
Citação
 
 
0 #1 Eliane Rocha 08/09/2010 13:54
Vale destacar que a foto é crédito de Jader Souza, que gentilmente cedeu as fotografias para deixar a reportagem mais atrativa.
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