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Anônimos na praça

Qui, 16 de Setembro de 2010 20:28 Administrador
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Luzia Irene Silva, 32 anos, carrega no nome a promessa da mãe, Raimunda Costa, que batizou-a  em homenagem a Santa Luzia, protetora dos olhos. A crença deu rumos diferentes para as duas mulheres. Do lado de cá, a saia comprida até os pés e os cabelos longos escondidos num coque deixam à mostra a face limpa da fé renovada todas as manhãs no círculo de oração da igreja Assembleia de Deus, no bairro Equatorial.

Irene, como prefere ser chamada, é mais uma entre os tantos brasileiros que encontram no templo o conforto para os aperreios da vida. Ela também faz parte da massa dos milhares de anônimos amontoados na base da pirâmide, procurando uma brecha na informalidade para criar os filhos.

O degrau que sustenta a família Silva está posto em uma das áreas mais frequentadas pela mocidade boa-vistense. A Praça das Águas, conhecida pelo espetáculo de chuva em cores cuspida dos chafarizes, guarda apenas bicos enferrujados no meio dos ladrilhos manchados com o limbo seco. O Portal do Milênio, outro atrativo da principal avenida da capital resiste às revelações dos cartões postais, espalhados pelos balcões da Velia Coutinho.

Aos jovens, restaram apenas quadrados de cerâmicas para arranhar o solado de seus tênis All Star e a borda das fontes, que reúne tribos dos cabelos escorridos e propositalmente assanhados para a testa, escondendo os olhos sombrios. Neste cenário, onde se vê apenas gente transitando sem parar como se estivesse num labirinto, pipocam famílias arrastando isopores, panelas e, às vezes, com um punhado de trocados amarrados à liga. É o mercado ambulante saindo de casa quando a tarde cai, em busca da sobrevivência na privilegiada zona norte da cidade.

Irene e o marido, Francisco, engrossam a massa que se ajeita no estacionamento da praça. O carrinho de churros, comprado por R$ 4 mil, está emparelhado a outros no meio fio da espaçosa Ene Garcez. O lugar está na mira dos fiscais. Quem se instalou na área sabe que é proibido, ainda assim desafiam a lei na esperança de a prefeitura lhes arrumar um cantinho – igual fizeram com outros ambulantes que respiram aliviados sob a simpática cobertura com telhas de barro a 100 metros dali.

A salsicha encorpada com riscas nas laterais é feita de trigo temperado com baunilha, açúcar, sal e manteiga. O bolinho de origem espanhola é frito na gordura hidrogenada a 300 graus; no tacho, é virado com escumadeira até ganhar o dourado. O mesclado doce com canela dá o acabamento final ao churro, agora pronto para receber o recheio doce de leite, que escorre pela borda. A cena rouba a atenção da criançada, principal clientela dos Silva.

Entre os doces e a esperança 

A guloseima de R$ 1,50 é o lanche mais barato na redondeza – consumido por todas as cores, tamanhos e rendas. De um em um, o caixa – nos finais de semana movimentados a festas públicas – pode fechar a conta da noite com a venda de 250 unidades.

A casa das centenas, contudo, não é suficiente para tirar o casal – pai de dois filhos adolescentes – da terceira letra do alfabeto na camada social. Eles sabem a distância que os separa da sonhada ascensão, por isso acordam cedo todos os dias para chegar mais perto do centro do mapa urbano.

O marido corre pelas ruas para reforçar o orçamento da família vendendo produtos para o comércio varejista; a filha caçula, Jackilini, 12 anos, – nome herdado da paixão do pai pela antiga dupla de vôlei Jacqueline e Sandra – atravessa a cidade de ônibus para ocupar vaga em escola pública. “Aqui no centro a escola é mais rígida”, avalia a mãe.

O gasto de R$ 100 com passagens é o preço mensal que os pais preferem pagar para manter os filhos em mesmo pé de igualdade de uma camada restrita, que despeja o futuro no portão do colégio para não desligar suas possantes picapes e esquentar o conforto comprado em 72 parcelas.

Às 16h30, Irene aponta no asfalto dirigindo o carro da família – novo Gol, geração 5 – em direção à Praça das Águas. Acompanhada da filha, prepara o ambiente de trabalho enquanto o marido não chega. A carrocinha de churros, guardada na pizzaria em frente sob o pagamento de R$ 25 semanais, novamente é posta na vaga de estacionamento à espera dos clientes.

A rotina de segunda a segunda não tem folga. “As únicas férias que tirei foram de três meses, quando fiquei doente há dois anos”, diz Irene, sem deixar de virar o bolo no tacho fervente. “Já queimei o braço uma vez, presente de Natal do ano passado”, justifica com humor.

Nessa labuta, já se vão nove anos na informalidade. Os Silva não estão sozinhos: pelo menos cinco carrinhos de churros se aglomeram entre os de pizza, cachorros-quentes e vendedores de balinhas com sotaque guianense.

Sob olhos avessos de guardas municipais, os ambulantes tiram da praça o que os governos ainda não cumpriram: a promessa do sonhado desenvolvimento para o Estado de Roraima.

Enquanto a prefeitura não os expulsa, Irene, Francisco e tantos outros pares de anônimos resistem como as cerâmicas quebradas da praça, na esperança de quem sabe ganhar o cantinho coberto com telha de barro.



 

 

Por Eliane Rocha - Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

Comentários  

 
0 #1 Carlos A. Silva 25/02/2012 16:58
Parabens a Colunista, por evidenciar este exercito de reserva que já nao mais estará totalmente as obscuras, pois com a sua competencia faz vislumbrar estes anonimos da praça. Diga-se de passagem necessários em meio a praça tal mal cuidada.
Sucessos!!!!
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