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Eram 11h10 quando os primeiros iguanas apontaram nos galhos do imponente marimari. Quase em fila, desceram abanando as longas caudas verdes com faixas transversais escuras como se estivessem num corrimão; outros surgiram da mata à margem direita do rio Branco. Carlos Eduardo Bento Alves já estava à espera dos répteis para a refeição do dia: manga fatiada.
A façanha acontece todas as manhãs, sempre à mesma hora, e pode ser vista por quem vai ao conhecido Porto do Babazinho em direção à Praia Grande – localizado ao final da avenida Major Williams, rumo à parada dos carros pipas que se abastecem das águas do rio para regar canteiros das principais ruas da capital.
Deitado sobre a grama rasteira, Dudu, como é chamado pelos frequentadores, espera os iguanas se aproximarem. Cortando lentamente a manga em fatias, vai atraindo os animais. Não demora, patas de cinco dedos com unhas fortes e pontudas começam a pisar sobre o peito nu do dublê de adestrador, como se estivessem passeando nos galhos das ingaranas que se espalham pelo quintal do porto.
Mas a comida está mais à frente. Com uma das mãos suspensas, Eduardo balança o pedaço de manga para chamar a atenção dos arborícolas. Imponente, um réptil se aproxima, levanta a cabeça esticando o saco dilatável pendurado sob a garganta, apóia as patas traseiras nas costelas do alimentador e aponta a língua curta e grossa em direção à drupa carnosa e saborosa. Num ímpeto, o animal suspende o corpo como cachorro adestrado e avança sobre a talhada amarela.
Satisfeito, se volta para trás rapidamente balançando a longa cauda. A perna do alimentador é a via mais fácil para deixar o caminho livre para o próximo. A cena se repete várias vezes.
Eduardo também compartilha o alimento com os iguanas. Desafiando-os, coloca uma fatia de manga na boca e fica à espreita. De repente um, da turma de nove, escala o peito do caboclo mais uma vez. Como um bebê que se aninha ao corpo da mãe quando quer dormir, o sinimbu se abre e cola ao corpo do amigo humano. Sem temer, se aproxima do lábio, como se fosse dar um suculento beijo e rouba o que de fato lhe interessa.
O espetáculo dos iguanas dura pelo menos meia hora no gramado de entrada do Porto Babazinho. Todos que comparecem ao banquete ganham a refeição do dia. Cerca de seis mangas são fatiadas por Eduardo para saciar a fome dos animais. “Eu não tenho inveja do Richard”, fala Dudu, referindo-se a Richard Rasmussen, que apresentava um quadro televisivo sobre fauna e flora selvagens. Ele expõe o peito todo arranhado com orgulho. Feliz por ser o único a estar tão próximo dos répteis a ponto de ser confundido com os amigos verdes.
A brincadeira do barqueiro começou por acaso. Há cerca de três anos aprendeu ofício de governar barco de alumínio para levar banhistas até a Praia Grande. Nos intervalos, escutava chiados nas folhas secas e via rabos abanarem de um lado para outro à procura de alimentos.
Sem pretensão, jogava manga e mamão cortados para as espécies que mudam de cor para se proteger dos predadores: às vezes, verde como as folhas de uma árvore; noutras, marrom igual à casca do tronco das ingás. Íntimo dos bichos, começou a dar-lhes comida na boca. A brincadeira virou atração do porto nos finais de semana. Crianças se divertem vendo o domador transformar em festa o almoço dos iguanas.
Amanhã, à mesma hora, os iguanas voltarão para visitar o homem que os alimenta.
Por Eliane Rocha -
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Comentários
Carlos (Teresina-Piauí)
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