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Quinze metros quadrados. A medida que podia ser da cozinha de uma casa serviu para mensurar o tamanho do sonho da família Abou Chahine, quando chegou a Roraima na década de 80. Naquele tempo, a moeda na pequena Boa Vista, filha do ex-Território, circulava em picuás atochados de ouro. Transformar o pequeno e insignificante negócio da rua Araújo Filho em 1,6 mil metros quadrados de concreto armado na avenida Capitão Júlio Bezerra é fruto de 25 anos de trabalho.
Para descobrir a fórmula da venda, Naouaf Abou Chahine viajou quilômetros. Assim como milhares de nordestinos que migraram para o eldorado encravado nas brenhas da mata amazônica nos anos 1980, o árabe vislumbrava por essas bandas oportunidades que a paulicéia desvairada já não oferecia mais.
Médico pediatra, formado pela Faculdade de Medicina de Pouso Alegre, Minais Gerais, o sírio, nascido em Orman, no Estado de Sweda, aventurou-se com o cunhado, Arman Abu Fakhir, rumo ao extremo norte do Brasil. A notícia era de que por essas paragens havia muitas terras, mais do que gente civilizada para ocupá-las.
Era o ano de 1983, quando os orientais embarcaram de ônibus saindo de São Paulo, rasgando o Sudeste, rumo a ainda trafegável BR–319, que liga Porto Velho a Manaus. De lá, faltavam ainda 784 quilômetros para chegar ao lugar conhecido apenas pelos livros de Geografia e História.
Por aqui foi constatado o que o povo lá debaixo falava: havia terras, emprego em abundância, mas quase ninguém com qualificação técnica para ocupar as vagas. Uma das medidas do Governo Federal para tornar o lugar atrativo foi abrir frentes de trabalho criando cargos, por meio do funcionalismo público. Chahine foi um dos que recebeu convite, mas não aceitou. O lugarejo chamado São João da Baliza estava distante dos planos do médico. Fakhir, ao contrário, comemorava com as malas de roupas vazias. Blusas, vestidos e calças jeans, trazidos para comercializar, foram todos vendidos para alegria do mascate.
Como bem entoam aos quatro cantos, que basta tomar água do rio Branco para voltar, Chahine não fugiu à regra. Um ano depois, se aventurava novamente pela mesma rodovia piçarrada, desta vez, sozinho, para tentar a vida em Rondônia. Os territórios erres, no entanto, tinham as mesmas peculiaridades: pouco povoados e sem nenhuma infraestrutura.
A estabilidade do cunhado em Boa Vista, influenciou o médico na hora de fazer a escolha. O convite para trabalhar em Baliza ainda ressoava. A residência de pediatria daria lugar à necessidade daquela pequena comunidade. Era a clínica geral que as famílias buscavam com as inúmeras enfermidades que abatiam seus parentes.
Na vila, trabalhou por dois anos. Nesse período trouxe a mulher, Hiyan Yaghi, e a filha, Layelli, com dois anos de idade. Instalou a família em imóvel comprado na rua Araújo Filho de sociedade com o pai, Salame Ben Youssef, e o cunhado.
Os cômodos da casa, que já dividiam a dormida com a loja de roupas, recebiam mais membros Abou Chahine. Em pouco tempo, comportaria também outra empresa.
A pequena Souria
O tino para os negócios, sempre presente na cultura do povo do Oriente Médio, fez valer com a chegada de Hiyan. Incentivado pela mulher, Chahine foi buscar alternativas para investir no comércio. A preferência estava para o mercado de móveis ou confecções, mas outra proposta mudou os rumos da prosa. “Surgiu a ideia de abrir uma farmácia, mas eu não queria por ser médico”, confessa Chahine, preocupado com o que reza a ética médica sobre investimentos no ramo de remédios.
Investir numa área, embora familiar para o profissional da Medicina, mas totalmente desconhecida de como funcionava na prática comercial era o grande temor. Naquele tempo não se falava em pesquisa de mercado, tampouco em ser um empreendedor na isolada capital do Norte. “Fomos visitar as farmácias que existiam aqui para conseguir informações”, relembra. Na primeira visita, perceberam que não seria fácil. Comerciantes fechados em seus casulos cobertos de zinco não revelaram o caminho do ouro. O jeito foi apelar para a ajuda do pai e o do irmão, Juhed, em São Paulo, que se encarregaram de fazer a primeira compra de medicamentos – cerca de R$ 8 mil. As dezenas de caixas com mercadorias chegaram da capital paulista para ocupar o pequeno espaço de 15m², reservado ao lado da loja de roupas.
A nova farmácia se chamaria Souria – Síria em árabe. Prateleiras de madeira, um balcão e uma mesa com cadeira. Este era o patrimônio do estabelecimento, que começava com uma exigência da Vigilância Sanitária. “Pediram que o espaço tivesse pelo menos trinta metros quadrado”, conta Chahine.
Sorria, como acabou ficando conhecida a pequenina farmácia, tratou de crescer rápido. Em menos de um ano de funcionamento, foi ampliada atendendo a exigência do órgão sanitário. Dois anos depois, as instalações – e a freguesia – também duplicaram.
Enquanto Hiyan comandava com maestria o empreendimento, o marido experimentava novo posto de trabalho. Alto Alegre, localizado a 89 quilômetros de Boa Vista, reduziu o tempo de visitas do médico à capital: de 15 dias para todo final de semana.
Souria por uma Mega
Uma avenida, um ponto comercial, uma oportunidade. Foi assim que, mais uma vez, a chance de mudança bateu na porta dos Abou Chahine: em forma de medida. Era preciso esticar a trena até o limite para poder calcular o terreno largo na Júlio Bezerra.
O imóvel que encheu os olhos dos futuros donos também franziu testas com a possível ameaça. Competir com três farmácias vizinhas foi visto como loucura por empresários veteranos no ramo.
As recomendações não frearam os planos do sírio. Criado no Brás – bairro paulistano -, o tino do menino que acompanhou o pai, mascate, depois dono de uma fabriqueta de roupas no bairro árabe, revelou talento para driblar qualquer infortúnio.
Em 1994, nascia imponente o embrião Megafarma. O nome escolhido revelava o tamanho do empreendimento erguido em caixote de concreto armado medindo 400m².
Diferente da Souria, a Megafarma era visível e levantava olhares para o primeiro andar. A ameaça de ser engolida pelos concorrentes ficou para trás uma mega de vezes.
Nas novas prateleiras, medicamentos, brinquedos, perfumaria e artigos para presentes foram arrumados ao alcance de todos. A meta agora era superar expectativas, surpreender e encantar o cliente com ofertas de serviços. Manter a recém inaugurada estrutura com as vendas eram os principais desafios do grupo. “Não tínhamos dinheiro. O trabalho do dia era que ia pagando as contas”, revela Chahine, ao completar: “A gente fazia de tudo para dar certo”.
Atendimento a qualquer hora
Para dar certo, os Abou Chahine sabiam que era preciso além da oferta de produtos e serviços, apresentar diferencial no atendimento. Assim como a Souria, que ainda funcionava no Centro da cidade, a Megafarma atendia o cliente a qualquer tempo. “Aconteceu de várias vezes a gente ter fechado a farmácia e chegar cliente. Reabríamos para atender”, confidencia o empresário.
Inicialmente, de 8h às 21h, o horário de atendimento foi estendido para as 23h. O “Disk Entrega” foi outro serviço que acompanhou o crescimento da farmácia. “Vimos outras capitais maiores com este atendimento, então resolvemos aplicá-lo aqui”, diz Chahine.
O horário de funcionamento do estabelecimento chamou a atenção do sindicato das farmácias, que cuidou de determinar escala de plantão e regular para as 20h o limite para atendimento comercial de todas as empresas do ramo de medicamentos. A medida embutia proteção a empresários que se sentiam ameaçados por não abrirem à noite. Ocorre que já estava previsto em lei municipal a venda de remédios até a meia-noite.
O conflito jurídico foi decidido em assembleia. Os donos de farmácias teriam duas opções: funcionar até as 20h ou ficar de portas abertas durante 24 horas. “Se ficássemos até as 20h perderíamos 30% do faturamento”, reclamou Chahine à época. A segunda alternativa, segundo o empresário, também era uma ameaça, tendo em vista que os custos aumentariam com serviços de segurança, consumo de energia e pagamento de adicionais noturnos para empregados, entre outros.
A conversa com a equipe de funcionários para decidir qual caminho deveria seguir foi fundamental para o médico. “Eles concordaram. Então decidimos ficar abertos 24 horas todos os dias”, conta. O que a princípio foi colocado como imposição pela diretoria do sindicato, se transformou numa bandeira de marketing para a Megafarma.
A porta de ferro do estabelecimento foi arrancada dando lugar a um portal. A novidade se espalhou na pequena Boa Vista, trouxe novos clientes e consolidou a marca. Há pelo menos 12 anos, o serviço 24 horas é referência em atendimento no Estado de Roraima.
Brinquedos na receita médica
Sem serem inventores da inserção de produtos de perfumaria, brinquedos e cosméticos dentro de farmácias os Abou Chahine, certamente, foram pioneiros na ideia de agregar estes serviços em Boa Vista.
Aberta no puxadinho da residência, o estabelecimento nasceu com espírito familiar. Todos que chegavam se sentiam à vontade para conversar com o dono, expor necessidades, fazer pedidos de remédios que não encontravam nas prateleiras e sugerir. De uma dessas sugestões, nasceu a venda brinquedos. Carrinhos, bonecas e ursos de pelúcia passaram a enfeitar e colorir o ambiente farmacêutico.
Fortalecendo a marca
Com a Megafarma nasceram outros empreendimentos da família Abou Chahine. Hoje são quatro franquias – uma com vendas de calçados, bolsas e acessórios, outra de roupas femininas, mais a farmácia de manipulação e uma lanchonete. Há ainda a agência de viagens, que ocupa uma das salas da matriz.
A antiga Souria, pequenina e encolhida entre as portas da loja de roupas, transformou-se na Megafarma da Ville Roy.
Por Eliane Rocha - Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.