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Inicial Especial Se plantar, nasce

Se plantar, nasce

Qui, 08 de Abril de 2010 22:19 Administrador
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Duzentos mil reais perdidos em dois hectares de plantação de tomates em estufa. Este foi o prejuízo no investimento de R$ 1 milhão feito nas terras do município do Cantá por Jorge Lopes Caníço, há menos de dois anos.  A bactéria ralstonia solanacearum, que murcha a planta de cima para baixo, empestou o solo e destruiu o sonho do português, cheio de planos para o Estado que conheceu primeiro pelo Google.

“Na Europa temos uma filosofia: ‘Quando uma cultura não vai bem, para, e escolhe outra”, ensina Jorge Lopes, com forte sotaque lusitano. Como bom europeu, o português seguiu a doutrina e, no mesmo terreno, plantou melão, repolho e mamão dos tipos havaí e formosa, além de abóbora e batata doce. A área de 20 hectares ficou colorida, deu saborosos frutos e rendeu bons negócios.

O resultado agora é outro: cerca de 20 toneladas de frutas saem toda semana em caminhões do Carrefour – um dos maiores varejistas de frutas e hortifrutigranjeiros no País – pela BR-174, rumo ao mercado amazonense. A multinacional francesa tem intenção de fazer do Estado de Roraima o cinturão verde de Manaus.

Em Boa Vista, um empresário leva semanalmente para as prateleiras do seu supermercado cerca de oito toneladas da produção. O tomate, aquele que arruinou a plantação e os planos do português, voltou a ser cultivado em outro local; desta vez longe das pragas.

Jorge Lopes confirmou o que só sabia pela internet: as terras acima da linha do Equador são férteis a qualquer tempo. Não precisa sol, chuva, tampouco frio para ver brotar no lavrado roraimense tapete verde com frutos de toda espécie.

Embora o agricultor conte com todas essas vantagens da natureza, a realidade sobre a produção em Roraima deixa o Estado distante de ser competitivo. Estudo publicado pela Secretaria Estadual do Planejamento e Desenvolvimento, em 2009, diz que “no Estado de Roraima, ainda é predominante a pequena propriedade, com baixo padrão tecnológico”.

A fruticultura, segundo a pesquisa, representa 8,6 mil hectares de área produtiva. São plantados melancia, maracujá, limão, mamão, abacaxi e banana, com maior cultivo nos municípios de Caroebe e Rorainópolis – cerca de 66% da produção do Estado. Parte da colheita deste fruto abastece o mercado amazonense.

O estudo mostra ainda que, de 2003 a 2007, a plantação de melão nunca ultrapassou a casa das 200 toneladas por ano. A melancia saiu de 4 para 7 mil toneladas em quatro anos – um crescimento de pouco mais de 500 quilos anuais.

Segundo o secretário de Agricultura, Eugênio Thomé, o Estado importa por mês 300 toneladas de farinha de mandioca – raiz que deveria nascer igual mata-pasto em solo roraimense. De leite, são 350 mil litros importados mensalmente para abastecer o mercado local. O que deveria ser exportado chega aqui em caminhões empoeirados com faturas a pagar.

Descobrir que fatores contribuem para o Estado de Roraima, dono de solo rico não ser o grande exportador de alimentos da Região Norte é ainda pauta de discussão entre produtores e técnicos da área.

Contrariando as estatísticas

Jorge Lopes, sem se apegar aos números foi buscar alternativas para plantar. Encontrou. Uma delas está cravada nas terras dos sogros, no Cantá, onde tem preparados 25 hectares para plantação – que já está toda vendida para o Carrefour do Amazonas. Na região do Urubuzinho – zona rural de Boa Vista – alugou 140 hectares com planos de experimentar outras culturas. Resultado: mais de 25 toneladas de melancia e melão cultivados em meio hectare – plantio feito em outubro de 2009, com colheita feita em janeiro deste ano. Toda a produção foi vendida para a multinacional e um supermercado de Boa Vista. “Para produzir melão não tem melhor clima que o de Roraima”, atesta o agricultor.

O solo em que nunca havia nascido sequer uma raiz de macaxeira superou as expectativas do português e surpreendeu técnicos. “A isso se chama tecnologia”, diz o secretário de Agricultura, ao explicar que o simples manejo na correção do solo pode implicar no resultado da colheita esperada.

A falta de tecnologia tem sido um calcanhar de Aquiles para o pequeno produtor, que tem a terra, recebe alguns incentivos do governo, como insumos e maquinários, mas na hora de preparar o solo não tem técnica suficiente para fazer a semente germinar bons frutos. “O agricultor tem que ter tudo na medida certa”, insiste o produtor de soja, Dirceu Vinhal, que tem larga experiência na plantação de grãos em Roraima.

O que parecem ser apenas frases feitas são, na prática, ensinamentos básicos que o homem do campo deixou de aprender porque estava ocupado demais, enterrado até o pescoço nas grotas da mata à procura de ouro. Boa parte desses produtores veio dos garimpos, que explodiram na década de 80 por estas bandas. Obrigados a deixar os baixões, foi em Boa Vista que se instalaram. Sem profissão, só lhes restou a mata virgem e úmida, hoje, queimada e sem nutrientes.

Dezoito variedades de melancias

Na região do Urubuzinho, o português plantou oito tipos de melão e 18 de melancia – uma delas sem sementes, preferência das donas de casa européias dada a facilidade na hora de comer, e com tamanho inferior às consumidas no Brasil. Na Europa, essa característica é capaz de esvaziar um container com as verdinhas de miolo avermelhado.

O novo experimento prepara uma nova etapa nos projetos do agricultor: exportar, a partir de dezembro deste ano, para a Espanha. Abóbora e batata doce branca também irão compor a cesta de frutas.

Conforme explicou Jorge, o mercado é bastante atrativo tendo em vista que países europeus já consomem melão do Brasil. O Nordeste, principal exportador da fruta, não produz como em Roraima – de janeiro a abril. A África, por sua vez, não tem dado conta de abastecer os consumidores europeus. O Estado do extremo norte surge como expectativa de abastecimento de fruta de qualidade aos exigentes consumidores do velho continente.

A estratégia, conta o empresário agrícola, seria produzir nas “janelas”, quando não há produção dos principais exportadores e atender esses clientes. Em julho, Jorge Lopes se encontra com empresários espanhóis para negociar o plantio.

O Sebrae Roraima estuda meio de atender o empresário. “O mais indicado é que seja feita consultoria em comércio e logística”, opina o analista de Acesso a Mercados da instituição, Jardel Luiz Silva.

Ainda, segundo o analista, com o trabalho em mãos o empresário terá condições de avaliar se deve ou não investir em determinado segmento. “A consultoria dá oportunidade de o empresário conhecer todos os benefícios”, acrescenta. Por meio do estudo, “o consultor irá conhecer as qualidades do produto, saber qual a melhor maneira de colocá-lo no mercado, ver por onde é mais viável o escoamento dessas mercadorias”, explica Jardel.

As duas portas comerciais de fronteira, Venezuela e Guiana, para o analista de mercado, soam como fortes atrativos para que o agricultor possa exportar as frutas a custos mais baixos para os países europeus. O empresário Jorge Lopes, observa o técnico do Sebrae, tem uma característica peculiar que, segundo ele, é favorável ao desenvolvimento de outros setores. “Ele arrisca, investe na produção. Vemos seu Jorge como uma âncora que pode influenciar outros empresários”, avalia.

Luz no sabor da fruta

Técnico agrícola, com 25 anos de profissão, Jorge Lopes nunca teve medo de desafios. O primeiro foi aos 19 anos de idade, quando recebeu do pai alguns alqueires de terra na cidade de Santarém, em Portugal. Por lá, plantou morango, cenoura, tomate e pimentão. O conhecimento técnico e manejo adquiridos naquela época o tornaram um expert no experimento de variadas culturas.

Em terras tupiniquins, o lusitano conquistou primeiro uma brasileira, Cristina Alcântara, com quem está casado há 12 anos. Depois enamorou-se dos pastos de Mato Grosso, onde tentou investir na pecuária, mas logo percebeu que seu talento estava mesmo para o plantio.

Na cidade de Sorriso, cultivou melancia, abóbora e melão. A produção, no entanto, encontrou forte concorrente: o frete. Bem perto dali, no Estado do Goiás, a diferença de R$ 0,10 amarelou a plantação e mudou os rumos da família Lopes.

Não sabia Jorge que seria preciso escalar o mapa para chegar ao chão firme e produtivo. Uma visita a Roraima para rever os sogros, em novembro de 2007, abriu novos horizontes para o incansável e otimista europeu. Antes de se instalar, fez pesquisa de mercado pela internet para saber consumo e renda per capita do pequeno Estado brasileiro.

A alguns quilômetros pela BR-174 enxergou mercado promissor. O vizinho Amazonas consome muito, mas produz quase nada, era o que diziam estudos feitos pelo Carrefour da Europa e de São Paulo.

A primeira impressão por aqui: clima excelente e muita terra. Tudo que um agricultor precisa para produzir em larga escala. Outra característica encheu os olhos do visitante: a luminosidade. Conforme explicou, o grau de luz aqui está acima da média se comparada com outras regiões do País, fator que contribui para maior brix e qualidade das frutas.

O lavrado foi outra descoberta que vem dando bons resultados. Sem nenhuma aplicação de herbicida, Jorge Lopes corrige o solo com calcário vindo da Venezuela, que age com outros fertilizantes, e depois enche as valetas com sementes.

Na região do Urubuzinho – zona rural de Boa Vista –, o português alugou 140 hectares

Legenda: A luminosidade aqui no Estado, segundo o agricultor, está acima da média se comparado a outras regiões do País, fator que contribui para maior brix (brilho) e qualidade das frutas.

 


Por Eliane Rocha - Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

Fotos: France Telles

Comentários  

 
0 #4 ROSI MARTINS 27/05/2011 17:25
SE PLANTAR, NASCE, E QUEM PLANTA BONS FRUTOS COLHE BONS FRUTOS. PARABÉNS PELO PRÊMIO ELIANE.
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0 #3 Rebeca 31/08/2010 00:38
Oi, muito boa a sua matéria,gostei de saber que Roraima é uma terra produtiva. Estou estudando sobre as exportações que Roraima, esta fazendo,e acho de suma impotância o que vcs conseguem fazer.
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0 #2 Edicon 12/07/2010 19:24
Olá gostei da materia, sou tecnico e produtor de frutas e hortaliças aqui na Bahia. Se o governo me der insentivo, mudarei para Roraima.Gostaria q alguem de lar entrasse em contato comigo para troca de informações.Obrigado
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0 #1 kassiane 05/06/2010 16:21
oi eu gostei vbastante disso
sabia que isso é que eu estou aprendendo
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