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No depósito, três crianças correm como se estivessem num parque de diversões. As caixas de frutas viram carrinho na mão de Erik, sete anos. O menino de cabelos louros, vestido em calça de brim, blusa de algodão amarela, calçando tênis mostra-se exigente com a aparência. Pulseira e anel de ouro, mais o relógio, presente ganho no último Dia das Crianças, enfeitam braços e dedo do garoto sempre à procura de algo novo para transformar em brinquedo.
A escola que transformou o cearense em um dos mais promissores empreendedores da capital do Estado de Roraima não tem carteira, cadernos, quadro negro tampouco livros didáticos. O diploma do antigo segundo grau, concluído a muito custo e à base de “cola” nos últimos seis meses para terminar, é o único documento oficial dos estudos que não pode continuar.
A determinação e convicção de que apenas se consegue chegar ao topo da pirâmide social com esforço são premissas na vida de Walquimar, hoje dono do “Pátio das Frutas” – referência no ramo de frutarias, hortifrutigranjeiros e mariscos em Boa Vista.
Para quem só aprendeu a ler aos 12 anos de idade graças ao empenho da dedicada professora Noeli – nome que hora ou outra passeia pela memória de Walquimar em forma de gratidão à única pessoa que lhe mostrou, por meio das letras, ser possível chegar aonde se quer –, ele foi além dos garranchos rabiscados no caderno.
O sonho começou a ser construído ao lado do pai, Edimilson Paulo Rabelo, num modesto box do antigo Mercado Municipal de Boa Vista. Uma dúzia de vassouras de cipó, 40 bananas e alguns trocados na caixinha: este era o capital da família para começar o primeiro negócio.
Dos irmãos gêmeos, Lourinho, como era chamado desde criança por causa dos fios amarelos que esvoaçavam ao vento, despontou para o negócio. Trabalhou nove anos no comércio do pai sem saber o que era ter em mãos o tão valioso salário que todo empregado espera a cada fim de mês. “Eu pensava: ‘Se o negócio dele vai bem, o meu também vai’. Então sempre ajudei meu pai”. A frase deu estímulo ao menino que se tornou homem dentro de um quadrado onde mal cabiam cebolas, tomates e hortaliças.
Dentro daquele cubículo, Lourinho cresceu mais do que podia imaginar. Saiu dos seus pouco mais 1,60 metro de altura, que diminuem em cima das pernas cambotas, para o prédio de dois pavimentos. De repente, o lourinho e baixinho ficou grande. O estigma de feirante cedeu vez para a palavra da moda: “empreendedor”. Sem se dar conta, o vendedor de frutas agora era empresário.
A “edificação”, como costuma se referir ao prédio construído há dois anos em um das áreas privilegiadas do bairro São Francisco, é prova concreta de que o trabalho edifica o homem.
Do modesto box à vitrine de frutas
No “Pátio das Frutas”, um salão espaçoso e climatizado deixa ao alcance de olhos e tatos dos clientes as mercadorias dispostas em prateleiras e freezers. Abacaxis, melões, melancias, mamões e bananas colorem corredores e atraem as donas de casa – principais compradoras do mercado.
O investimento é fruto de 12 anos de trabalho na Feira de São Francisco, onde continua a tocar o famoso “Box do Lourinho” – três sortidas vendas, que se tornaram referência pela variedade e opção que supermercados da cidade não ofereciam, como lagosta, camarão fresco, mexilhão, caranguejo além de frutas e verduras 100% orgânicas. O atendimento foi outro diferencial que colocou o estabelecimento na frente quando o assunto era excelência.
Sempre escutar o cliente, era uma das regras que Lourinho e a pequena equipe de funcionários, a quem prefere chamar de colaboradores, “porque ninguém é empregado de ninguém”, seguiam à risca. “Se o cliente perguntava por algo que não tinha, a gente anotava. Quando ele voltava o produto tava lá”, conta orgulhoso.
Lourinho faz questão de dizer aos quatro cantos do mercado que o cliente é o seu mais importante incentivador. “Se ele não gosta de alguma coisa, a gente diz que vai melhorar”. E melhora. O crescimento do negócio no box da feira começou assim: ouvindo um a um. Cresceu tanto que se transformou na enorme vitrine de alimentos da rua Rocha Leal.
No crivo do cliente
O cliente exige o produto, reclama do preço, mas no final sempre sai com a sacola abarrotada de compras. O resultado final é fruto do atendimento, feito pelos próprios donos, Lourinho e Joelma, que são facilmente vistos entre as gôndolas do mercado.
Nunca deixar de atender a demanda, é lema dos proprietários. Para isso, é preciso ter estoque, problema que os empresários cuidaram de resolver com a compra de duas câmaras – uma de congelamento e outra de resfriamento – para armazenar frutas, verduras e mariscos.
Atualmente, dezesseis fornecedores de outros estados abastecem o Pátio das Frutas. São cerca de 17 mil quilos de mercadorias chegando a cada 15 dias para garantir o estoque. A estratégia de abastecimento deve-se à plantação incipiente somada ao período de estiagem prolongado em Roraima. “Tem época que é 70% [das frutas] regional”, diz referindo-se ao período chuvoso. “Atualmente, essa mesma porcentagem vem de fora”, explica.
Um salto com os pés no chão
Como o primeiro salto de paraquedas, feito há cinco anos, Lourinho experimenta de novo o que um dia descobriu que não sabia fazer: rir. Ele ri ao ver os três filhos, Erik, Emily e a pequena Evelyn – de cabelos negros e arrepiados – passearem pelo pátio de frutas como se estivessem num parque de diversões. Vitor, cinco anos, chegou há pouco tempo para compor a família, mas parece que nasceu no meio dos novos irmãos. As corridas desenfreadas e carregadas de gargalhadas entre as gôndolas do mercado, comemoram a vida daqui para a frente com os novos pais.
Enquanto Lourinho conversa e atribui tarefas aos funcionários, acalenta a filha de cinco anos, que foi arranhada pelo gato de estimação. No escritório, o armário de portas azuis foi emoldurado com obras artísticas do filho Erik. A velha camioneta do pai – Chevrolet tipo D-20, verde, ano 1995 – depois de caprichosamente desenhada, foi pintada na cor laranja, assim como o Pátio das Frutas, afixados ao lado; outro papel tipo A4 ganhou cores e movimentos com os desenhos de tubarões, baleias, golfinhos, um caranguejo e água viva. Coincidentemente, no mar do menino habitam animais expostos nos freezers, que enchem de água a boca dos fregueses.
Basta subir alguns degraus para notar que a família Rabelo está por toda parte. No andar superior ao comércio, Joelma, a mulher, reservou cantinho para as refeições e descanso das crianças quando chegam da escola. Ir para casa, localizada no bairro Tancredo Neves, tomaria tempo e colocaria o casal distante dos filhos o dia todo. A decisão acertada foi aninhar as crias enquanto garantem o futuro atrás de um balcão.
Por Eliane Rocha -
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Fotos: France Telles