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Inicial Especial Sem espinha na garganta

Sem espinha na garganta

Seg, 12 de Abril de 2010 22:08 Administrador
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Na esquina da rua Nilo Melo com avenida Santos Dumont, a cozinha aberta, localizada nos fundos do quintal de uma residência, exala cheiro de tambaqui assando na brasa. Não é a casa da mamãe, mas é como se fosse. O que diferencia ser um lugar comum são cardápios passeando entre as mesas apresentando as opões de peixes. Dentre elas, filé de dourado grelhado e matrinxã assados embaralham a cabeça dos clientes na hora de fazer o pedido.

Na entrada do estabelecimento, José Coelho Filho, 61 anos, calçado nas inseparáveis alpercatas de couro, é quem dá as boas vindas para velhos clientes e turistas. A mulher, Aldenora, comanda a equipe na cozinha. A filha, Camila, bacharela em Direito, se encarrega de administrar o caixa.

O negócio familiar, comum em boa parte dos empreendimentos Brasil afora, começou da inquietação do proprietário. Depois de trabalhar 34 anos como escrivão de polícia, Coelho, assim conhecido entre amigos e a clientela cativa, decidiu que não queria ser um mero aposentado. A figura do velhinho sentado em banco de praça com os compadres jogando dominó angustiava o ex-servidor público.

Em Manaus, onde morou por quase cinco anos, descobriu por acaso a saída para o ócio. A cozinha aberta de um restaurante abriu-lhe os olhos e aguçou-lhe o paladar. A ideia daquele empreendimento despertou no roraimense a vontade de investir em gastronomia. Sem qualquer formação ou habilidade para a culinária, Coelho começou a, empiricamente, procurar formar o cardápio que traria para servir ao boa-vistense.

Em uma de suas andanças pelo Mercado Manaus Moderno, deparou-se com um vendedor de peixes que retirava as espinhas do pescado e o transformava num filé branco. Espetáculo à parte, o que chamou a atenção foi a perícia do tratador em retirar a vértebra sem rasgar ou perfurar a carne.

“Perguntei quanto ele cobraria pra me ensinar a tirar a espinha do peixe. Ele respondeu: ‘se quiser aprender vai ter que ficar olhando’”, relembra Coelho da cara de desdém do homem. Se a negativa tinha intenção de espantar o freguês, não deu certo. Dias depois, lá estava o mesmo roraimense no mercado. Desta vez, levou um acompanhante para aprender a técnica do caboclo amazonense.

“Ele tirava a espinha do peixe muito rápido”, conta. Para conquistar o arredio no ofício, Coelho comprava pelo menos cinco matrinxãs a cada ida ao box e pedia para o vendedor  tratá-los. “Eu ficava por lá de duas a três horas só observando”. Se não bastasse a aula na feira, ainda chegava ao apartamento com a sacola abarrotada de peixes para fazer a tarefa de casa com a mulher.

No início, o casal gastava de 30 a 40 minutos para tirar as espinhas do animal. “Depois aperfeiçoei a técnica e comecei a tirar a espinha pelo lombo e costela do peixe”, revela satisfeito.  O prato principal estava quase pronto, agora faltava lugar para abrir o negócio. Manaus ou Boa Vista? A vontade de regressar à sossegada capital do extremo norte do País decidiu a questão.

Uma espinha na garganta

Ao voltar para Boa Vista, a família não dispunha de capital para investir num empreendimento que não sabia ao certo se iria dar certo. Um empréstimo consignado de mais de R$ 20 mil para ser descontados mês a mês no contra-cheque foi a única alternativa do casal. O dinheiro seria usado para construir a cozinha do restaurante.

Faltariam ainda mesas e cadeiras, louças, talheres, copos, toalhas, arroz, feijão, temperos e a matéria-prima principal: o peixe. A relação de compras era maior do que as notas de reais amarradas à liga.

As espinhas de peixe pareciam ter atravessado a garganta dos Coelho, mas não havia tempo para correr à emergência. O jeito foi começar apenas com o que dispunham naquele momento.  As minguadas garoupas seriam transformadas em saborosos pratos de tambaquis e matrinxãs.

O fundo do quintal da casa – patrimônio de uma vida inteira de trabalho – seria o endereço do negócio que já nascia na informalidade. Registrar firma soava a compromisso de carregar a estátua de empresário de sucesso. Muita pretensão para o habilidoso datilógrafo do ex-Território.

O tapiri, localizado atrás da residência, num fechar de olhos foi transformado na cozinha do restaurante. No lugar da piscina, pedra, areia e cimento. O concreto seria usado como salão aberto para comportar seis jogos de mesas com cadeiras – feitas no fundo do quintal pelo próprio Coelho em seu novo ofício: aprendiz de marceneiro. Para quem duvidava que os móveis não ficariam de pé, ele os exibe até hoje com orgulho.

Na medida certa

Não só mesas e cadeiras foram confeccionadas na medida certa, o empreendimento também tinha que estar dentro do tamanho estabelecido: no cantinho do quintal. Assim começou a funcionar o restaurante da família.

Aos finais de semana, Coelho convidava seletos amigos para degustar os pratos. “Eles experimentavam os peixes e iam me dizendo se estava bom ou ruim”, relembra. O aval da turma foi fundamental para que restaurante abrisse as portas ao público.

Era 28 de outubro de 2005 – Dia do Servidor Público Estadual, quando, silenciosamente, Coelho abre o portão da garagem da residência para receber os primeiros clientes. Feriado em Boa Vista e dia de pagamento dos servidores públicos são escolhidos pela família para comer fora de casa.

O movimento animou os donos do negócio, mas durou pouco tempo. O salão começou a esvaziar e os planos dos sonhadores caíram por terra. “Tinha dia em que a gente não vendia nada”, relata. Sem querer assumir o fracasso, Coelho confidenciava o medo apenas à mulher, esteio nos momentos mais difíceis.

Igual ao começo, novamente o restaurante recebia dezenas de pedidos num só expediente. Era 8 de março de 2006, Dia Internacional da Mulher. A data, lembrada até hoje, marcou, de fato, o início de um novo tempo. Desta vez, com direito ao nome do restaurante “Peixe Mania”  pintado no muro da casa, marca escolhida pela filha Carolina.

O empreendimento, que já ocupava o quintal, foi para dentro da casa. Ocupou a garagem e dois apartamentos no piso superior – essas áreas foram climatizadas.

Qualificar para não parar

À medida que a estrutura do restaurante ia crescendo, o dono viu a necessidade de investir em material humano. Coelho e a turma de garçons, cozinheiras e ajudantes de cozinha fizeram cursos voltados para áreas de atendimento e culinária. 

Do Caburaí ao Chuí

Pensar que o peixe de água doce é saboreado apenas pelo povo nortista e, com privilégio, para quem faz turismo por essas bandas, é não apostar na ousadia de quem tudo faz para surpreender o cliente.

Dourado grelhado, tambaqui e matrinxã sem espinhas, assados, já decolaram inúmeras vezes rumo a diversos cantos do País. Embalados em vasilhas de alumínio, são acompanhados com feijão prainha, farofa feita da farinha de mandioca, conhecida farinha seca, arroz branco e vinagrete (tomate e cebola picados).

Goiânia, Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e até o Rio Grande do Sul são alguns dos lugares que já experimentaram as especialidades do Peixe Mania. “A gente prepara o prato e deixa pronto para servir. Quando o cliente chega em casa é só esquentar no forno, colocar na mesa e comer a vontade”, ensina o exímio cozinheiro.

 

Por Eliane Rocha - Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

Fotos: France Telles

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