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A maioria das histórias de pessoas empreendedoras começa por uma necessidade. Seja pela falta de um produto, ou de oportunidades no mercado de trabalho, lá estão elas buscando espaço no meio de milhões de anônimos nesse Brasil da informalidade.
O que a princípio poderia ter sido um abalo para a profissional, tornou-se oportunidade. A experiência com paisagismo abriu novas frentes de trabalho para um mercado pouco explorado na cidade: criações de projetos e execução de jardins.
Com conhecimento na ponta do lápis, Socorro começou a trabalhar de casa em casa preparando jardins e dando alegria a espaços antes sem vida ou utilidade. O ofício lhe revelou a deficiente oferta de matéria-prima no comércio. Nos viveiros havia poucas variedades de espécies que deixasse a paisagem de ambientes a contento.
“Percebi que havia necessidade de dar um colorido maior aos jardins, mas o mercado não oferecia opções de plantas”, conta. As pouco mais de quatro floriculturas existentes na cidade ofertavam apenas arranjos florais para decorações de festas.
A falta de espaço fez a engenheira cultivar no terreno ao lado da residência lantanas, equissórias e palmeiras. O modesto canteiro transformou-se em grande viveiro de plantas. Hoje, cerca de 20 mil mudas de variadas espécies – pelo menos 15 mil de flores temporárias – colorem a rua Madre Radgundes, no bairro Aparecida.
Os compostos orgânicos, que antes chegavam fretados de São Paulo, passaram a ser preparados no viveiro e revendidos para outras floriculturas. “Depois que passamos a produzir, diminuímos 50% no custo da produção”, ressalta.
Para desenvolver com excelência a atividade, o empresário precisa especializar-se. Socorro Bessa não fez diferente do que fazem empreendedores que primam pela qualidade. Para se destacar num mercado, em que as pessoas eram vistas apenas como cultivadores de “plantinhas”, ela foi buscar aperfeiçoamento.
Fez curso especialmente para produção de flores, aprendeu como confeccionar embalagens para as plantas, além de novas técnicas de plantio. O resultado pode ser visto na entrada da casa de paisagismo.
Kalanchoes, petúnias, cravinas e vincas (boa-noite) enchem o canteiro à esquerda com as cores amarelas, vermelhas, brancas e roxas. Em pequenos jarros revestidos com transparentes folhas decoradas, as plantas se transformam nos mimos preferidos pelo público feminino. “No Dia Internacional da Mulher, vendemos cerca de três mil vasos”, comemora Socorro.
As plantas acabaram virando decoração de festas, como aniversários, casamentos e formaturas. Além da beleza natural das flores, as espécies encantam clientes dada a variedade de cores. “Foi a forma que encontramos de não deixar o cliente voltar para casa com as mãos vazias”, comenta Socorro.
Para não murchar as flores
Para sobreviver nesse mercado ainda tão carente de matéria-prima, Socorro Bessa diz que é preciso ser versátil. Produzir é a palavra de ordem. “Temos que atender o mercado de floricultura, floristas e promotores de eventos para nos manter”, observa. Estes são os clientes que batem à porta das casas de produção de plantas em Boa Vista.
“A gente experimenta uma nova espécie; se não emplacar, deixamos de produzi-la”, enfatiza, ao garantir que está sempre com foco nas novas tendências. “Fazemos pesquisa de mercado para saber o que nosso cliente quer”. Feiras, exposições e até mesmo cursos, segundo a produtora, também resultam na melhor maneira de vender o produto.
No viveiro, plantas temperadas, indicadas para clima frio, e tropicais são experimentos constantes da produtora. Para mantê-las sempre bonitas e com aspecto saudável, Socorro diz que utiliza sistema de irrigação por microaspersão – gotícolas de água saindo de cânulas, dando impressão de chuva leve – de uma a duas vezes por dia, dependendo da temperatura.
Crescimento de 30% ao ano
Contrariando a máxima de que “a vida não é um mar de rosas”, Socorro experimenta crescimento no ramo da floricultura. No ano passado, a empresa Norte Flora cresceu 30% em relação à produção. Na prática, isso quer dizer que antes eram plantadas 15 mil mudas a cada 30 dias. Hoje, são 20 dias para o plantio da mesma quantidade de espécies.
A produtora informou que trabalha com cronograma de plantio para não deixar de atender a demanda. Em datas comemorativas, por exemplo, encurta o tempo de produção. “São 10 dias entre um plantio e outro”, diz ao explicar que as plantas são cultivadas na casa de vegetação – onde são fincadas as estacas (porção de um ramo da planta para reproduzir) –, em seguida, é feita nova plantação.
Apostando em novo nicho de mercado
Para sobreviver ao mercado instável do ramo de floricultura em Boa Vista, Socorro Bessa aposta em novas alternativas. Por meio de projeto com flores tropicais, executado pelo Sebrae Roraima, ela e mais dois produtores experimentam o plantio de outras espécies de plantas.
Numa área equivalente a um campo de futebol, localizado no Distrito Industrial, a produtora fez calagem (correção do pH do solo), adubação orgânica, preparação dos canteiros e sistema de irrigação. A previsão é de que ao final da primeira quinzena de maio a área esteja toda repleta de helicônias, bastões do imperador, alpínias e uma variedade de folhagens.
A gestora do projeto de Flores e Plantas Ornamentais do Sebrae, Itamira Soares, informou que a instituição dá assistência técnica aos produtores, que inclui instruções com diretrizes para montar as unidades, espaçamento e adubação da terra entre outras.
O resultado do trabalho vai se transformar em informativo e servirá como fonte de pesquisa para outras pessoas que desejem investir na área. O projeto teve início em 2007, com pesquisa para saber quais flores eram mais vendidas, quantidade e que tipo de produtos o mercado buscava.
Por Eliane Rocha - Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.
Fotos: Edinaldo Morais
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