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Investir no ramo de beneficiamento de leite num estado que tem cerca de 700 mil cabeças de gado pode ser arriscado demais para quem trabalha com foco em resultados. Os irmãos Cláudio Desidério e Maurício Pontes desafiam as estatísticas de produção de laticínios e despontam na frente com nova marca no mercado, produzida no município de Caracaraí.
Na tentativa de garantir pelo menos a produção já existente, os empresários trabalham junto aos produtores. A instalação da beneficiadora em Caracaraí foi a maneira encontrada de estar mais perto dos criadores de gado e estudar estratégias de abastecimento. “Fizemos trabalho de campo e pesquisa de mercado para saber se seria viável instalar fábrica no município. Com a bacia leiteira concentrada no sul do Estado decidimos que era logisticamente estratégico ficar aqui”, avalia Cláudio.
No estudo, foi constatado que Boa Vista consome cerca de 60 mil litros de leite por dia. Em Rorainópolis, segundo mais populoso município do Estado de Roraima, são 10 mil litros consumidos diariamente.
Os números são animadores, mas quanto à produção não se pode dizer o mesmo. Pesquisa Pecuária Municipal, realizada pelo IBGE em 2007, mostra que os 15 municípios do Estado de Roraima juntos conseguiram produzir menos de seis mil litros no ano – quantidade que não atenderia hoje nem as escolas da capital. Para abastecer o mercado, empresários têm que recorrer às distribuidoras de fora. No final das contas quem paga mais caro é o consumidor.
O leite integral de um litro custa para o consumidor R$ 2,84 e o desnatado, R$ 2,49. O mesmo alimento in natura produzido no Estado sai a R$ 1,79. A concorrência da fábrica roraimense, segundo Cláudio, não está em disputar espaço nas prateleiras dos supermercados com as grandes marcas, mas dentro do pasto. “Hoje, seria necessário investimento de R$ 500 mil para desenvolver o laticínio em Roraima”.
Sem desanimar com os números, os empresários de Caracaraí botaram o pé na estrada a fim de mobilizar a classe produtora. Parcerias, reuniões com criadores e ajuda do Governo do Estado são algumas das medidas tomadas pelos fabricantes.
A fábrica, além do leite pasteurizado, produz queijos tipo minas, muçarela, provolone e em nozinhos; também são produzidos iogurte, bebidas lácteas, achocolatados e doces. São pelo menos 12 mil quilos de queijos saindo de Caracaraí para abastecer prateleiras de supermercados e panificadoras de Boa Vista. No pouco tempo de inaugurada, a marca já está presente em 80 estabelecimentos comerciais – dezessete deles com o produto disponível para degustação do cliente.
Os números animam. É com eles que os mato-grossenses pretendem mudar a realidade da produção de leite em Roraima. A fábrica tem como fornecedores de matéria-prima as localidades Entre Rios, Novo Paraíso, Apiaú, Roxinho, Vila da Penha, Campos Novos e o município de São João da Baliza.
No lugar da miniusina, que nunca funcionou, estão instaladas duas câmaras frias e equipamentos para pasteurização. As máquinas trabalham diuturnamente para garantir o carregamento dos caminhões a cada dois dias com produtos saindo para Boa Vista.
Para não azedar o leite
Um das grandes preocupações para quem trabalha no ramo de laticínios é a higiene. O simples manejo de forma inadequada pode colocar toda a produção a perder. Segundo Cláudio Desidério, o primeiro cuidado deve ser tomado durante a ordenha. Limpeza das tetas do animal, do balde que colherá o leite e a lavagem das mãos do ordenhador antes de começar a espremer o úbere da vaca são ações preventivas simples, mas que devem ser seguidas à risca. “Esse momento da retirada do leite é o mais importante”, alerta.
Nessa hora o que manda é o domínio da técnica. Engana-se quem acredita que basta ter anos de experiência criando gado para saber executar o serviço corretamente. Uma das soluções encontradas pela fábrica de laticínios foi trabalhar com ajuda de pessoal qualificado no assunto. Dois veterinários e agrônomos foram contratados pela empresa para orientar criadores de gado sobre manejo, trato com o animal e como manter a sanidade do rebanho.
Cláudio afirma que o atendimento a esses produtores tem dado mais segurança, com menos chances de perder o material coletado. Hoje, esse serviço representa 15% dos custos da empresa. “A meta é reduzir esta margem para 5% a 3% do faturamento”.
A vaquinha que deu certo
Ao contrário de a marca exibir vaca robusta com as tetas explodindo em leite, vê-se uma vaquinha pintada, aparentemente sem nenhum atrativo, posando no pasto. “A idéia foi criar um ambiente rústico para dizer que o leite vem direto da fazenda”, explica Cláudio. “Assim as crianças podem pedir: ‘mãe eu quero leite da vaquinha’”, brinca.
Após cinco meses de inaugurada, a fábrica processa quatro mil litros de leite por dia (foto 28)
Foto de abertura (34)
Por Eliane Rocha - Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.
Fotos: Aroldo Pinheiro