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Os últimos números apontam aumento no número de estudantes e formados em nível superior, mas país e estado ainda precisam crescer mais
Afonso Pereira de Lima tem 25 anos e é formado em medicina pela Universidade Federal de Roraima (UFRR). A medicina sempre foi a única opção profissional traçada por Afonso. “Desde o ensino médio, quando começam as preocupações com a faculdade ou o que você vai ser, eu já sabia que queria estudar medicina. É o que eu sempre quis fazer”, afirma.
Formado desde 2009, atualmente Afonso é tenente de saúde do Exército. Além de atender no Posto Médico de Guarnição de Boa Vista, o jovem médico também trabalha no Hospital da Mulher. “É um curso difícil, exige dedicação integral e força de vontade, mas o mercado de trabalho no Estado é carente, então não foi difícil arrumar uma colocação. Três meses depois de ter terminado a faculdade eu já estava entrando no Exército”, comemora o jovem médico, que se já prepara para fazer residência em psiquiatria ou anestesiologia.
Afonso é o quarto filho de dona Graça e seu Afonso a obter o diploma universitário na família. Iuri Pereira Lima, 40 anos, é bacharel em administração e direito, Joaquim Parimé Pereira Lima, 42 anos, é engenheiro agrônomo, e Gelb Platão, o irmão mais velho, com 45 anos, é formado em medicina veterinária.
A confeiteira Dona Graça e o pecuarista aposentado seu Afonso se sentem orgulhosos da educação que conseguiram dar aos filhos. “É uma vitória muito grande pra nós. A gente não estudou em faculdade e os meninos estudaram sempre em escola pública. O estudo é a coisa mais preciosa que um pai e uma mãe podem deixar”, acredita Graça.
De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), em 2009, cerca de 29 mil jovens e adultos de Roraima buscavam a mesma conquista dos filhos de dona Graça e seu Afonso. Esse era o número de alunos matriculados em um dos cursos oferecidos pelas seis instituições de educação superior do estado. “O IBGE está para divulgar os números do censo 2010, ou seja, esses números certamente aumentaram no ano seguinte”, advertiu Vicente de Paulo Joaquim, chefe do IBGE em Roraima.
Os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam avanços no grau de escolaridade em todo o país. Em 2010 houve um crescimento de 3,5% no nível de escolaridade da população como um todo, principalmente dos trabalhadores. O percentual de pessoas com 11 anos ou mais de estudo, no total da população com 10 anos ou mais de idade, cresceu de 43% em 2009 para 44,5% em 2010.
Apesar dos números positivos o Brasil ainda não pode comemorar. Segundo dados divulgados pela UNESCO em 2007, apenas 13,8% dos jovens brasileiros entre 18 e 24 anos estão no Ensino Superior.
Na avaliação de graduados na população de 25 a 64 anos, o relatório divulgado em 2008 pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) colocava o Brasil na última posição no ranking com outros 36 países. A meta do Plano Nacional de Educação é chegar em 2020 com 33% dos jovens entre 18 e 24 anos matriculados no ensino superior.
Bolsas de estudo são alternativa para estudantes de baixa renda
Em todo o Brasil, o aumento de faculdades e universidade privadas tem baixado os preços das mensalidades, tornando o sonho da graduação possível para os jovens das classes mais baixas, que não conseguem uma vaga nos concorridos vestibulares das instituições públicas. Em Roraima, além das Universidades Federal e Estadual, e do Instituto Federal de Roraima, três faculdades privadas colaboram para o aumento na oferta de vagas em cursos superiores. A Faculdade Estácio Atual da Amazônia, Faculdade Cathedral e Faculdade Roraimense de Ensino Superior (FARES).
Além de mensalidades mais acessíveis, muitos estudantes recorrem às bolsas de estudo e financiamentos para conseguirem levar o curso até o final e conquistar o canudo. Adriano Ribeiro de Oliveira se formou em Jornalismo na Faculdade Estácio Atual graças a uma bolsa do Governo do Estado, que financiou 100% do curso.
Em 2007, quando passou no vestibular, Adriano trabalhava cuidando de carros na Rua Inácio Magalhães, Centro. O dinheiro arrecadado com manobra e lavagem dos veículos era usado para sustentar a casa onde morava com a mãe e o padrasto. “Eu me matriculei sem saber se iria conseguir pagar o curso. Nos três primeiros meses os colegas da turma fizeram cotinha para me ajudar com as mensalidades até eu ser selecionado para a bolsa integral”, relembra.
O programa de incentivo mais conhecido é o PROUNI, do Governo Federal, que concede bolsas de estudos parciais e integrais a estudantes carentes que ingressam em universidades privadas. Para ter acesso, é preciso ter cursado o ensino médio na rede pública, ou em particular com bolsas integrais. Além disso, o aluno deve ter participado do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) e ter alcançado mais de 4,5 pontos. A renda familiar também é avaliada e deve ser inferior a três salários mínimos. A seleção do PROUNI demora aproximadamente um mês, neste período o candidato escolhe até cinco cursos em cinco universidades diferentes, tendo que concorrer com outros alunos.
Outro caminho para amenizar o bolso durante os anos na faculdade é o Fies (Financiamento Estudantil), onde o governo financia até 50% dos gastos do curso pela Caixa Econômica Federal. Os juros são mais baixos e, em alguns casos, não é necessário ter fiador. Depois da formatura o estudante continua pagando o financiamento direto para a Caixa.
Empresas investem na educação superior de funcionários
De olho na capacitação e valorização dos funcionários, alguns empresários de Boa Vista oferecem incentivos para os trabalhadores que buscam especialização em áreas de interesse da empresa.
Vitorino Perin, dono do Grupo Perin, viu que investir na formação de seus funcionários seria a saída para a falta de mão de obra qualificada, uma realidade em todas as cidades do país. A partir de parcerias com as três faculdades particulares da capital, Perin paga atualmente 50% das mensalidades de 47 dos 362 funcionários do grupo. O benefício é concedido para os trabalhadores que estudam Administração, Economia, Contabilidade, Psicologia e Marketing.
A gerente da Loja Perin matriz, Auda Machado, foi a primeira trabalhadora do grupo a ter ajuda financeira para cursar os quatro anos de Administração na Faculdade Estácio Atual da Amazônia.
“Eu fiquei surpresa, pois quando passei no vestibular, o seu Vitor me chamou e ofereceu essa ajuda de custo. Com certeza eu não teria conseguido pagar o curso até o final sozinha, sou muito grata”, conta Auda.
O investimento do Grupo impulsionou também a carreira de Auda, que começou a trabalhar no grupo como vendedora em 1997. Para Vitorino Perin, o investimento nos funcionários dá bons resultados. “Muitos deles ganham uma energia extra na faculdade. Eles vem para o trabalho cheios de idéias novas e com vontade de implantar o que estão aprendendo”, comemora.
Carlos Augusto Carvalho, professor no curso de Administração da Universidade Federal de Roraima e especialista em Recursos Humanos, acredita que ao investir na educação de seus funionários, a iniciativa privada está investindo no próprio negócio. “Mais do que uma ajuda de custo, as empresas fazem um investimento, já que o funcionário vai oferecer em troca o conhecimento adquirido na academia”, observa.
O professor acredita ainda que seria interessante se o Governo Federal pensasse em oferecer incentivos fiscais para empresas que investem na educação superior de seus funcionários. “Nunca ouvi falar de nenhum tipo de incentivo para essas empresas. Seria um grande passo na democratização do ensino superior no Brasil”, afirma.
Colaboradora
Paula Brukmüller